terça-feira, 21 de setembro de 2010

O POETA QUE JÁ NÃO SABIA ESCREVER, por Cláudia Cruz Catarino


Quando o vento, incontrolado, lhe batia na vidraça mal fechada, Elliot gostava de não pensar em mais nada e ficar apenas quieto de olhos fechados e todos os sentidos travados excepto a audição. Era aquele sentido que importava naquele momento. Era daquele que tinha de obrigatoriamente emanar qualquer coisa. Um clique, um sinal, uma sensação exasperada. Tal como num pôr-do-sol era a visão que prevalecia ou nos tragos saborosos de uma qualquer ambrósia seria o paladar a protagonizar o deleite e a atenção especial.

Os sentidos eram, sem dúvida, a porta de entrada, o canal de comunicação entre o mundo que o rodeava e aquele que ele se propunha criar. O resto vinha de forma extra-sensorial, envolto em magia inexplicável. O resto jorrava de uma fonte invisível e amorfa que é segredo intransponível e a que muitos chamam inspiração.

Num momento que podia demorar horas, mas que se traduzia em breves segundos, eis que a obra nascia, eis que novos mundos se insinuavam e das folhas de papel outrora brancas brotavam agora as mais belas palavras envoltas em harmonia, musicalidade e sabedoria.

Para Elliot, sempre havia sido assim. Quase como numa dinâmica de servo que cumpre a vontade divina, ele facilmente se tornava arauto dos céus e, de repente, oferecia ao mundo a clarividência honesta e edificante da palavra certa que nos toca como se de pó de estrelas se tratasse.

Tinha um público muito próprio, uma pequena elite consumidora voraz e sequiosa do intelecto generoso do poeta. Era confortável escrever para eles. Já conheciam os códigos. Sabiam-nos instintivamente. Admitiam inovação, enriqueciam a obra com a diversidade interpretativa e dos mundos criados pelo artista multiplicavam-se os universos do leitor participativo e perspicaz.

Todavia, a fragilidade do ser humano superava a condição semidivina do poeta., arredando-o, assim, do Olimpo desejado. Fragilidades que se espelham em posturas tão banais como a insegurança ou o esgotamento intelectual.

- Não posso crer! – gritava o poeta. Não posso! Não pode ser!!!

Agitado e com um desgosto que lhe inundava a face consumida pela angústia petrificante, Elliot sufocava em si mesmo. A inspiração tinha desaparecido. Como se de um caudal se tratasse, o rio havia secado e o leito árido e vergonhoso era agora estandarte de um fracasso imprevisto. Nem uma frase brotava da mente outrora magnífica, nem uma ideia com sentido. Nada. Irredutivelmente, nada. Desprezivelmente, nada. Nada. Nada. Nada.

Saiu porta fora. Desesperado, embrenhou-se no mato cerrado que rodeava a pequena habitação que o acolhia, a si e às suas saudosas ideias e palavras encantadas. Percorreu caminhos sinuosos, cheirou intensamente o pinho que abafava o solo humedecido. Fechou os olhos vezes sem fim, como se chamasse a si todos os outros sentidos. Congregou todas as sensações que a Natureza lhe disponibilizava, encerrou em si os ruídos, os aromas, o sabor acre das bagas que encontrava, a aspereza dos troncos que o vigiavam, a maciez das folhas que lhe cobriam a silhueta esbatida no chão. Média luz, contraluz, claridade, escuridão total. Apagou-se. Acendeu-se. Rodopiou. Parou. Agitou-se. Gritou alto… Nada!!! Desilusão…

Para onde tinha ido, afinal, a inspiração que o acompanhava há tanto tempo? E como tinha isso acontecido? Seria uma doença passageira que um médico pudesse tratar? Seria castigo divino por algum mal que houvesse causado?

Perguntas e mais perguntas que se acumulavam e geravam no artista uma sinfonia desconcertante.

Resolveu, então, procurar aquele que sempre o abrigara – Rafael.

Rafael era um velho amigo que conhecera Elliot quando ambos ainda partilhavam a juventude e o sonho da escrita. A vida tinha levado, no entanto, Rafael a optar pelos prazeres da escrita em tempos livres. Sem obrigações. Envolta em delícias constantes e sucessos esporádicos.

Já Elliot tinha sido consumido pela escrita desenfreada que roça a loucura. Era, de facto, muito bom. Amava a escrita, amava o mundo e reproduzia-o sob a forma de palavras que se unem num sentido definido.

- Deixa-me ficar cá, Rafael. Por favor. Não sei o que fazer. Se não consigo mais escrever, o que será de mim? Porquê? Porque é que isto me aconteceu?

- Calma, descansa. Estás cansado. É só isso. És um homem. Um homem como qualquer outro homem. Tens momentos. Todos temos. E o teu momento, agora, tem de ser de descanso, está bem?

Elliot anuiu sem esboçar qualquer expressão que indicasse sentimento por detrás do semblante carregado e opaco.

Deitou-se devagar com a cabeça muito bem colocada sobre a almofada como se acreditasse convictamente que o seu crânio abrigava um tesouro incalculável.

Chorou a noite toda. Já o sol forçava a entrada no taipal da janela quando o poeta tranquilizou. Mas foram breves os momentos de paz interior. Demasiado breves, por sinal.

- Nãaaaaaaaao!!!!!!!!!!! Não pode ser!!! Isto não me está a acontecer. Nãooooo, por favor, não…… - e soluçava compulsivamente de uma maneira que causaria compaixão a qualquer um que assistisse a tão triste cena.

- Rafael, tentei, tentei, mas não me saiu nada durante toda a noite! Nada! E agora, Rafael, e agora?

Elliot tinha os olhos vidrados como se prestes a desprender-se da face. Gritava, gesticulava e abanava o amigo ininterruptamente.

- Pára, Elliot. Vais magoar-me. Pára, amigo. Vamos. Temos de consultar um médico. Não podes continuar assim. Por favor.

Foi-lhe diagnosticado um esgotamento nervoso severo. O espírito, demasiado forçado, escusou-se a dar resposta e, num reflexo de auto-protecção, entrou num estado de «ponto morto», nem para a frente nem para trás. Havia, portanto, que seguir à risca um plano de descanso e tomar alguma medicação. Medicação que lhe iria entorpecer os sentidos, aqueles mesmos que ele tanto valorizava e que eram manancial de ideias e palavras que frutificavam e geravam Arte.

- Não sei se quero definhar desta maneira. Acabar com o que possa restar de mim com estes fármacos hostis que vão fazer sair de mim um outro eu. Sim, porque eu sou o que escrevo. Nada mais importará se eu não me puder concretizar na escrita. Nem vale a pena estar neste mundo.

- Não digas disparates, Elliot. Tu vales muito. Vales tanto. E, para além do mais, vais voltar a escrever. Não duvides disso. Vais voltar a ser feliz, amigo.

- Não me parece, Rafael. Eu existo através da escrita. Eu vejo-me através daquilo que escrevo e os outros, aqueles que lêem o que escrevo, vêem-me através das minhas palavras. É bom sentir o reconhecimento. Confesso que já nem sei viver sem ele. Parece-me que me viciei nos aplausos, nos comentários. Como é que eu vou pura e simplesmente dizer «Acabou. Acabou… Não há mais. Não vos posso dar nada mais.»

- Elliot, a tua escrita já te tornou imortal. O que escreveste jamais será apagado. Jamais. Não será apagado das páginas das edições que correm mundo nem tão pouco das vidas daqueles que se deixaram impregnar das tuas ideias e se inundaram da beleza que a tua poesia projecta. A cada nova leitura, tu renascerás na interpretação daquele que a ler. Não te subestimes, amigo. Por favor. Abençoada a mente de quem já fez nascer aquilo que tu fizeste. Há tantos que se vão sem conhecer esse prazer.

O poeta baixou os olhos, triste. Tão triste que parecia nem ouvir as sábias palavras que Rafael proferia.

Fechou a porta do quarto, apagou a luz e deixou que o silêncio o inundasse numa tortura contínua.

Foram dias tremendos em que a dor que sentia era tanta que a qualquer momento parecia sucumbir e desagregar-se de si próprio, da sua identidade ou daquela que tão intimamente tinha projectado…

Enclausurado no quarto, iniciou um processo de auto-comiseração incrível e quase fatal. Não comia nem bebia. A luz feria-o e, por isso, entaipou-se como se lá fora o mundo ansiasse sorvê-lo. Não tardou a que chegassem a ele imagens irreais, fruto da alucinação causada pelo tremendo estado de fraqueza. Redemoinhos, fantasmas, sorrisos e lágrimas, faces desconhecidas, palavras soltas e apenas sussurradas.

- Rafael! Rafael! Estarei louco? É isso? Enlouqueci? Não posso! Não aguento mais este terror abismal.

O quarto exíguo mas confortável era agora cenário de uma tragédia que atingia o clímax esperado. Era incontornável.

Existem relatos de que, na natureza, homens e animais definham rumo à morte quando sentem que já não são úteis. Os primeiros motivados pelo raciocínio implacável, os segundos movidos pelo instinto mais básico da sobrevivência. Deixam-se ir, acabam de forma ténue sem grandes sobressaltos ou estranhas reacções numa evidente decadência de espírito.

Ao lado da cama de ferro que aconchegava o poeta, numa pequena mesinha de apoio já ausente de envernizamento, colorido e insinuante, jazia o frasco fatal que guardava a medicação prescrita.

Tremulamente e sufocado pelas lágrimas que vertiam descontroladamente e rolavam pela sua face agora lívida, Elliot preparou-se para o golpe final que seria a revelação das suas fraquezas e angústias, o seu lado mais mundano que o arredava irremediavelmente do estado de semideus que havia dimensionado.

Já os primeiros blisters entravam na sua boca quando Rafael irrompeu como um raio seco que não se espera mesmo em noite de trovoada.

- Pára! Destruíres-te? Porquê? Para quê? Para o mundo inteiro ter pena do pobre poeta? Por acaso achas que te tornarás um mártir? Os mártires são sempre lembrados, é um facto, mas tu, tu não és um mártir, Elliot. És um artista caprichoso e egoísta que desceu do seu pedestal e aterrou na crua realidade de que é um homem. E será isso um castigo, Elliot? Ser um ser humano é um castigo? Ter o dom da vida, poder gerar vida e ainda possuir o livre arbítrio que tudo permite e nada nega será um castigo, Elliot?

- Olha à tua volta! Olha! Estás doente, meu amigo… Doente de ti. Tu és a tua doença! Esse intelecto maravilhoso que abrigas e que agora deixaste adormecer infectou o teu coração. Secou a fonte que alguém te ofereceu. A ti e não a outro homem. Sim, porque nem todos os homens são tocados pela inspiração que, no teu caso, era praticamente incontrolável.

Era agora a vergonha o sentimento mais furioso no semblante do poeta. Uma a uma as escassas pílulas coloridas que havia tragado caíam-lhe dos lábios pálidos e imóveis. Não proferiu uma única palavra. Não se defendeu, não tentou expiar mágoas ou encetar defesas absurdas. Nada.

Rafael tinha-se esfumado e só as palavras que havia proferido ecoavam na cabeça do artista.

Exausto e desprendido da vida deixou-se cair quase inanimado na enorme cama de ferro.

No dia seguinte, acordou agitado, estremecido pelo odor forte de café acabado de coar.

- Quem está aí? Rafael? És tu?

- Bom dia, Sr. Elliot ! Como está hoje? Sente-se melhor? Que febre, senhor…

- Rosa? E o Rafael? – perguntou o poeta ainda anestesiado.

- Rafael, senhor? Quem é Rafael?

- O meu amigo de há anos. Melhor amigo, Rosa. Trabalhas cá desde que para cá vim, como é possível estares a indagar-me sobre o Rafael.

- Senhor, descanse. A medicação ainda está a fazer efeito. Ainda está muito débil, senhor. Tem mesmo de descansar. Vou trazer-lhe um chá bem quentinho. Aquele de maçã e canela que o senhor tanto gosta.

- Rafael? Continuarei louco? Não! Claro que não! Eu sei bem que não!

- Posso, Elliot? – perguntou alguém batendo ao de leve na porta robusta e ligeiramente empenada.

- Rafael?

Uma cabeça loura e uns olhinhos pequeninos mas muito brilhantes espreitaram por detrás da madeira que quase intimidava.

- Ah! Cármen? – sorriu Elliot embevecido. Entra! Por favor, entra!

- Querido Elliot, que susto nos pregaste! Estás melhor?

- Não sei, Cármen. Não sei se já consigo escrever. Mas, e o Rafael? Não me digas que também não te lembras dele.

- Rafael? O filho da tia Concha? O pequenino ruivinho?

- Não, Cármen! Não! O meu amigo Rafael. Melhor amigo de todos. Estivemos juntos na faculdade. É presença assídua nesta casa. Por amor de Deus…. Estarei louco de todo ou quererão vocês enlouquecer-me?

- Calma, querido. Tens de descansar. O médico disse-nos que o teu esgotamento foi grave. Não deves voltar a descurar a tua saúde. Passámos cá a noite inteira. Eu e a tia Concha. A Rosa preparou o outro quarto para podermos descansar. Não estiveste nada bem, Elliot, e parece que ainda não estás… Por favor, descansa.

- Obrigado, Carmenzita. Desculpa estar a ser rude. Desculpa. E a tia Concha?

- Foi ver o Rafael. Verificar se está tudo bem.

- Rafael? – exclamou Elliot excitado e já esquecido da conversa anterior.

- Sim, Rafael, o filho da tia Concha. 10 anos. Impossível ter andado contigo na faculdade…

- Ah, sim. Desculpa, Cármen. Sim, preciso mesmo de descansar. Vai tu também, querida amiga.

- Tens a certeza? Ficas bem?

- Sim, claro que sim. Obrigado.

- Ah, Elliot, o senhor da editora ligou há pouco. Disse-lhe que estavas a descansar mas nada mais adiantei acerca do teu estado.

- Sugadores! – retorquiu Elliot em voz baixa.

- Como? – estranhou a rapariga.

- Não, nada. Nada. Obrigado, Cármen. Fizeste bem. Como posso agradecer a tua generosidade?

- Esquece lá isso e fica bem. Quero continuar a ler-te, a descobrir-te por entre os enredos que as tuas palavras tecem.

E retirou-se em passos largos do quarto que abrigava o amigo.

Elliot voltou a esboçar um sorriso apagado e nada sentido. Acusou um tremor a alastrar-se pelo corpo ao mesmo tempo que lhe subia lenta e tortuosamente pela medula.

- Rafael? Quem és tu? Onde estás, amigo?

Deitou-se resignadamente, ausente de qualquer projecção acerca do futuro. Todavia, as palavras de Rafael continuavam a ecoar-lhe e desciam incisivas ao lugar mais recôndito do seu ser debilitado.

Eram palavras duras, bastante realistas, mas nada castradoras. Muito pelo contrário, incentivavam a acção, geravam dinâmica, agitavam ideias que iniciavam congregar-se e fundir-se num todo com sentido e também ele motivador.

Nessa noite, os sonhos trouxeram revelações que tranquilizaram o artista. No dia seguinte, tomado pela energia intelectual inesgotável que sempre o caracterizara, Elliot pegou na folha branca que guardava na gaveta da secretária antiga do seu quarto, a mesma folha que o aterrorizara há dias atrás e quase o fizera desprezar o dom da vida.

Lá estava ela. Sinuosa. Desafiadora. E, ao mesmo tempo, tão frágil, tão branca, tão vazia, tão inerte, tão nada…

Tomado pela inexplicável força anímica que fizera dele um artista adorado, escreveu, escreveu, escreveu. Quase sem pensar. Quase louco. Claramente desprendido da razão.

A caneta, sempre a mesma, em prata, lembrava a batuta ondulante do maestro que inspira a música de todos os instrumentos para logo a seguir expirar as suas emoções afinadas, porém desconcertantes:

Não sei que força ou que ímpeto me movem.

Fico quedo, petrificado, de olhos fechados e espírito aberto,

esperando sorver saborosamente

a doce brisa que me acende os sentidos e me amplifica as emoções.


Extravaso-me, supero-me, adio-me

e não mais controlo o que brota do meu ser extasiado.


Será o teu perfume, a tua doce voz?

Será o toque macio da tua pele vibrante?

Ou o sabor das tuas palavras ora acres ora melosas?


A visão de ti completa-me e enche-me de melodia compassada,

Bem orquestrada.

Deixo-me ir então.

Adio-me novamente.

Viajo por claves, pautas,

Aromas impetuosos e visões do paraíso.

Voo até ti e contigo.

Voo por baixo no topo do teu ser errante.

Voo para aterrar nas ideias claras

Que vejo por ti e através de ti.


Amigo, companheiro, sombra dos meus passos imaginários.

Conforta-me e diverge-me,

Empurra-me para o vórtice,

Sacode-me do obstáculo.


Alento e Esperança.

Alegria e Comoção.

A divindade é tua, pois só tu reinas entre todos os outros.

Na multidão celeste que apazigua os feitos dos homens

A trompeta é tua, pois dela emana o som insinuante.


E assim, por entre coros de querubins atarefados

Eis que o protector dos meus pensamentos

A Inspiração que por momentos me torna um deles

Desce dos céus e me enche de vida.


Rafael, Anjo Rafael,

Que a tua inspiração cubra as minhas palavras

E não mais permita que me ausente de mim!


Elliot Smith


Em êxtase merecido, o poeta-maestro pousou a batuta serenamente e sorriu para depois soltar uma gargalhada infindável.

Deitou-se novamente e descansou mais um pouco. À noite, lá estaria o editor para programarem a próxima data de entrega e não havia muito tempo a perder.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, por Cláudia Cruz Catarino


Desde criança sempre tivera o estranho hábito de olhar para as pessoas à sua volta e imaginá-las outras, com um aspecto diferente, uma roupagem oposta àquela com que se apresentavam e uma atitude diversa em relação à que exibiam naturalmente.

Vestia-as de muitas cores, despia-lhes as peles humanas e revestia-as de pêlos farfalhudos, penas sedosas ou escamas reluzentes e transformava-as dramaticamente, pincelando-as de imaginação e criatividade inesgotáveis.

Sempre fora assim. Para Alice, a Natureza existia para servir os seus devaneios artísticos que moldavam caprichosamente as imagens à sua volta, servindo-se de todas as paisagens captadas pela sua retina fotográfica.

- Anda, Alice! O que estás a fazer aí parada? – insistia a mãe. Estou com tanta pressa, filha! Voltamos cá amanhã, sim? Agora não pode mesmo ser, meu amor.

Alice sorria para a borboleta que esvoaçava à sua volta como se a conhecesse desde sempre e soltava risinhos amorosos de petiz embevecida com um qualquer espectáculo de magia.

Magia. Era isso…. Alice era uma perfeita mágica que, num toque de varinha, transformava todo o cenário à sua volta.

Ria para a borboleta, porque há muito que aquele insecto esvoaçante já não era borboleta, mas antes cachorro peludo agora alado. E como voava… Voava, ladrava e gania quando os raios de sol lhe batiam nos olhos e estes começavam a lacrimejar perante tanta claridade.

A pequena Alice tapava então a boca em jeito de reconhecida consciência da traquinice e, colocando o indicador esticadinho sobre os lábios rosados, pedia ao canino alado para cessar tamanha tolice.

De mão dada com a mãe apressada, Alice percorria a calçada que rapidamente se transformava em tapete cintilante e saltitava de pedrinha em pedrinha para não molhar os pés na água imaginária que a salpicava a cada pulo mais descuidado.

- És capaz de estar quieta Alice? – dizia a mãe já impaciente. O que é que se passa, filha? Anda como gente. Caramba, Alice, quando é que consigo chegar a casa? Não sabes que tenho de dar almoço ao teu pai e ao teu irmão? Por favor, filha, tenta compreender….

A mãe de Alice era uma senhora forte e robusta que há muito tinha perdido a fisionomia delicada característica dos seres femininos. A vida dura que levava apagara do seu semblante os contornos perfeitos e a frescura da juventude ao mesmo tempo que os múltiplos afazeres com que tinha de lidar diariamente haviam pincelado a sua tez de uma cor baça e acinzentada que desbotava o seu olhar pardacento. Era, no entanto, uma mulher valente, dedicada à família e, sobretudo à filha mais nova, Alice. Não sabia bem porquê, mas via na sua criança um tesouro delicado e frágil que temia ser usurpado pelas agruras da vida que transformam o belo num amontoado de circunstâncias atrozes e repletas de fealdade. Temia também que os outros não a compreendessem, não a soubessem aceitar tal e qual ela era. Sim, porque Alice era uma criança muito especial. Diferente, certamente. Mas, acima de tudo, especial.

Ao longo do caminho percorrido até a casa, Alice sorria constantemente para o seu companheiro alado ao mesmo tempo que sussurrava baixinho: «Vai, cão! Vai!» e salpicava-o com a água imaginária que corria debaixo dos seus pés, colocando as mãos em concha e abrindo-as depois em jeito de arremesso.

Não tardou a que o animal pousasse numa flor suculenta em néctar e por ali ficasse enquanto Alice acenava freneticamente, despedindo-se do seu estranho novo amigo.

E, assim, sempre pela mão da mãe, inclinou a cabecita em direcção ao céu imenso que cobria os seus passos. Lá em cima, nuvens de muitas formas povoavam o azul profundo, incitando a criatividade da pequena.

As nuvens eram as companheiras de Alice desde há muito tempo. Estavam sempre lá, fofas, multiformes e andantes e facilmente a imaginação da doce Alice transformava-as em todas as coisas do mundo.

- Mãe! Hoje depois de almoço, posso ir à gruta? – pedia Alice.

- À gruta, filha? Lá vens tu outra vez com isso. Caramba, filha, não me dás um minuto de descanso…. Eu já não te disse que a arrecadação não é uma gruta? E, para além disso, estão lá muitas coisas perigosas em que não podes mexer, já te disse várias vezes!

- Vá lá mãe! Deixa…. Vá lá! Eu não mexo em nada. Prometo! – e cruzava os indicadores esticados sobre os lábios que os beijavam em sinal de juramento sentido e inviolável.

- Por favor, filha. A mãe já tem tantas preocupações…. Como é que eu consigo estar descansada em casa contigo enfiada na arrecadação? Como, meu Deus?

Pobre senhora… À medida que ia falando com a filha em tom de súplica, a pequena amuava e emudecia. De olhos fechados e punhos cerrados, avançava ao sabor do nada e tropeçava nos seus próprios pés em jeito de punição das atitudes maternas.

Desligava os sentidos e caminhava apenas com a imaginação que, por esta altura, já a fizera princesa aprisionada na torre de um palácio antigo com grilhões enferrujados à espera da sua chegada.

A mãe tentava ignorar, balbuciava agitadamente a expressão «valha-me Deus» e sacudia dos ombros o peso de um mundo só seu mas infinitamente volumoso e digno de ser aplacado por um Atlas potente e musculado que ela, definitivamente, não era.

Chegadas a casa, Alice sentou-se no degrau do poial da porta da rua, enquanto a mãe arrumava as compras e já a água fervia numa panela enorme capaz de dar de comer a um regimento.

Cá fora, a princesa agrilhoada pegara num pequeno ramo da ameixeira do quintal e desenhava na terra batida o companheiro alado que tinha conhecido no caminho para casa. Sorria, então, para ele e via-o a ganhar vida e movimento e a saltar daquele desenho e a rodopiar sobre si mesmo de forma a morder a própria cauda.

Tão agitada era a figura que Alice não continha o riso estridente e incontrolável.

- Ah! ah!ah! Não sejas tolo! Cão feio! Cão doido!

Tinha sete anos a nossa pequena Alice e sempre fora uma criança de fácil trato não fora a tendência para a aparente alucinação. Desenhava, cantava, dançava e, sobretudo, falava sozinha, num infindável mundo de faz-de-conta. Não tinha amigos, rejeitava as outras crianças e a mãe já se tinha acostumado às particularidades da filha. Tolerava-as, mas não as compreendia e remetia qualquer explicação para a idade imberbe da filha especial.

Eram uma família relativamente grande. A mãe, o pai e três filhos – Alice e dois irmãos mais velhos com os quais ela quase nem mantinha contacto embora vivessem na mesma casa.

O mais velho de todos, Manuel, estava para casar. Era um rapaz enorme, também de poucas falas e trabalhava com o pai no café da família. Tinha conhecido uma rapariga azeda e muito vaidosa mas apaixonara-se perdidamente e tudo fazia para a agradar.

O irmão do meio era o estudioso da casa. Devorava livros de matemática, física e química e aspirava a ser médico. Para os pais, era um orgulho sequer sonhar em ter um doutor na família e muitos dos sacrifícios feitos por todos eram em prol dos estudos do Arturzinho.

A casa, ampla e pouco ornamentada, exibia apenas uma panóplia variadíssima de flores secas em cima de cada móvel, no parapeito das janelas e no centro da mesa de refeições. Flores de todas as cores, de múltiplas formas e tamanhos que, de tantas e tão pouco usuais, roçavam a excentricidade.

Alice, no entanto, não gostava deste estranho hábito da mãe que teimava trazer natureza morta para dentro de casa. A natureza morta não tem energia, não faz sonhar, esgota-se na monotonia da última forma que assumiu e, por isso, Alice esquivava-se a sequer roçar o seu olhar criativo naqueles ramalhetes funestos.

- Mãeeeeeeeee!!!! Vou para a gruta! – gritava a petiz em jeito de ousadia assumida.

- Não vais não, Alice! Vamos para a mesa! Vai lavar as mãos!

- Brrrrrrrrrrrr!!!!!!! Não te oiço, mãe! Não te consigo ouviiiiir!!! Vou para a gruta!

E foi. De sorriso maroto e já descalça aproximava-se da arrecadação encantada que, transposta a sua porta, se transformava em gruta medonha, humedecida por veios de água fresca que por ali serpenteavam e tilintavam ao cair no chão.

Ping!| Ping! Ping! E Alice encetava a tão desejada incursão pelos recantos daquele espaço banal agora transfigurado em cenário soturno e repleto de mistérios apetecíveis ansiosos por ser descobertos até que, já quase a embrenhar-se, perdida, por entre as paredes rochosas daquela gruta imaginária viu-se surpreendida pela voz firme do pai que a arrancava, assim, do início daquela deliciosa deambulação.

- Já para a mesa, menina! Não te digo nem mais uma vez! Dás cabo da tua mãe! – e apontava na direcção da porta da cozinha, exaltado.

O pai de Alice era um homem humilde e trabalhador talhado para a função de chefe de família. Um pouco mais velho do que a mulher, a diferença, porém, mal se notava, tais eram os estragos que as ralações e dissabores haviam produzido na pobre senhora.

Ao contrário dos outros homens da vizinhança, sempre desejara uma filha, uma menina doce que embalasse a sua vida monótona e, ao mesmo tempo, apoiasse a mulher e se dedicasse à família. Por isso, quando lhe colocaram a filha nos braços, não conteve as lágrimas e proferiu as melhores palavras de agradecimento a Deus por tamanha dádiva. Nunca tinha despejado os seus sentimentos assim, daquele modo lamechas, por nenhum dos outros filhos rapazes. Mas, quando Alice nasceu, o mundo tornou-se, de repente, melhor, mais divino, mais envolto em beleza.

- É linda, mulher, a nossa menina! Tão linda! Não lhe vai faltar nada! Nunca! Vai ter tudo na vida! Nem que eu tenha de trabalhar noite e dia! – e assim, meio lúcido, meio alucinado ia navegando por um mar desconhecido que lhe aconchegava o coração.

Mas, os tempos foram passando e Alice, com a sua natureza imprevisível e muitas vezes inexplicável ia atordoando a pouca elasticidade que a mente do pai apresentava.

- Já à minha frente, Alice! Já! – gritava, encolerizado, perante o ar atónito da pequena que olhava fixamente a veia grossa e saliente do pescoço do pai que parecia querer saltar ao mesmo tempo que palpitava qual cavalo a trote.

Não tardou a que a sua imaginação a transportasse para dentro daquele cordão gigante e se visse a cambalear por entre paredes agitadas que não paravam de se mexer, derrubando-a a cada passo que intentava. Mas, rapidamente, voltou a si e atendeu aos pedidos do pai, seguindo, cabisbaixa, até à mesa de refeições.

Lá, esperava-a uma verdadeira comitiva. A mãe, ansiosa e de olhinhos meio fechados pela preocupação eminente, o irmão mais velho, sempre com um ar apático e ausente quebrado apenas pela chegada inesperada da noiva espevitada e o Arturzinho, o maravilhoso Arturzinho, sempre tão empenhado em ser melhor que toda a gente.

O pai entrou, tomou o seu lugar na cabeceira da mesa, fitou Alice nos olhos e torceu a cabeça na direcção do banquinho vermelho onde a menina costumava sentar-se. Muito devagar, mas sempre com os olhos postos nos do pai, Alice sentou-se calmamente e colocou um enorme guardanapo à volta do pescoço em jeito de babete.

- As minhas desculpas, menina Laura. Faça o favor de se sentar. Almoça connosco, com certeza? – questionou o pai em forçada simpatia para com a futura nora.

- Muito obrigada, Sr. Américo. Claro que sim, com todo o gosto. – anuiu rapidamente a rapariga, arrastando um banco até ao lugar mais perto do seu noivo embevecido.

Não se calou durante toda a refeição. Numa voz irritante e com um discurso que incluía guinchinhos de doninha pelo meio, ia sacudindo as mãos e agitando o grande rabo-de-cavalo que ostentava no topo da cabeça.

- É horrível… - pensou Alice. Blhaac! Que bicho tão feio! Demasiado feio... Então, num passe de magia, tratou de iniciar a metamorfose necessária.

Pôs-lhe um bico no meio da face e cobriu-lhe o corpo de penas amarelas e roxas. No topo da cabeça, o rabo de cavalo farfalhudo deu lugar a uma crista escarlate que pendia para um dos lados, exactamente para aquele em que se encontrava o irmão Manuel que quase sufocava com aquele pendente que se ia avolumando de cada vez que a rapariga falava.

- Ih, ih, ih, ih!! – divertia-se Alice.

- Pára! Olha que sufocas o meu irmão! – gritou.

Atónitos com a atitude da pequena, todas as personagens daquele Carnaval unilateral, fixaram Alice em jeito de merecida repreensão.

- Alice!!! Como te atreves? Como podes desrespeitar assim a minha noiva? – gritava de forma convicta o irmão, tomado pela paixão inconsciente que incita as mais exacerbadas atitudes.

- Já para o quarto, minha menina! Só sais de lá quando te disser! – ordenou o pai com a veia do pescoço ainda mais insinuante do que no episódio da gruta.

Alice levantou-se calmamente e dirigiu-se para o pequeno compartimento destinado a ser o seu quarto de dormir. Atrás de si, uma multidão inteira rendia-se à pesada consternação da rapriga do rabo-de-cavalo que, de tão chocada, abanava-se com um guardanapo em jeito de leque ao mesmo tempo que retorquia «Deixem lá, é apenas uma criança».

A entrada no quarto funcionava como a incursão num daqueles portais intergalácticos com que os filmes de ficção científica nos presenteiam.

Alice entrava, empurrada por uma qualquer força brutal que a impelia para aquele espaço e deixava para trás de si um mundo que não compreendia, que se esgotava em cada momento, esgotando-a a ela também.

Ali, no seu quarto-masmorra-prisão-palácio-gruta-floresta encantada tudo era possível. Não existiam críticas, punições, entraves e era na coexistência temperada de mundos diversos e regidos apenas pela fertilidade criativa que Alice encontrava o verdadeiro sentido da natureza mutante das coisas.

O tempo foi cumprindo o seu dever e passando veloz, alterando tudo à sua passagem. Era, aliás, o efeito do tempo bastante compreensível para Alice que tão bem conhecia a necessidade da mutabilidade dos cenários e das coisas que habitam à nossa volta. A mudança gera nova vida, dinâmicas renovadas, energias recarregadas e, para Alice, isso fazia todo o sentido.

Só isso, aliás, fazia sentido.

E assim a pequena Alice deu lugar a uma jovem robusta, de olhar sempre enigmático e postura fascinante pelo mistério que envolvia o seu semblante.

Claro que a espontaneidade pueril não era já tanta. Por muito que não concordasse, sabia que havia regras a cumprir para que podesse cohabitar com os pais e com os demais que com eles conviviam e, para além disso, tinha-se arrependido vezes sem conta da vergonha sentida que provocara na mãe quando, por várias vezes, a ignorava em frente aos vizinhos.

Amava-a acima de qualquer outra coisa e sabia que embora não a compreendesse, a mãe era aquela que mais a aceitava. Por isso, doía-lhe imenso saber que podia magoar aquela que era, sem dúvida, a sua melhor amiga.

- Mãezinha! Estás bonita, hoje, com esse vestido pareces uma rainha medieval imponente .

- Uma rainha medieval, filha? Só tu. Eu, uma rainha? Estás sempre a inventar – e encolhia os ombros, franzindo o olhar já anestesiado pela presença dos constantes devaneios de Alice.

- Calma, mãezinha. Estou a brincar. Que mal tem isso?

- Nenhum, meu amor. Nenhum. – e colocava-se em bicos de pés para beijar suavemente a bochecha rosada da filha que, entretanto, tinha ganho uma altura incrível e estava parecidíssima com o irmão Manuel.

- Mãe, vou sair com o Carlos. Não volto tarde, está bem?

- Sim, filha. Mas, por favor, não leves novamente o rapaz para a arrecadação. Está tudo tão desarrumado. O que é que ele vai pensar? Por favor, filha, como é que queres arranjar um marido a enfiá-lo dessa maneira numa arrecadação ferrujenta onde quase não conseguimos colocar um pé?

Alice sorria perante as preocupações da mãe. Sabia-as sinceras e bem intencionadas, mas, claro, não as aceitava, pois não lhe faziam sentido algum.

O Carlos era um amigo de infância. Embora não fosse propriamente talhada para a amizade fácil, Alice conseguira, desde sempre, cativar a atenção daquele menino, agora homem. Mostrava-lhe os seus sonhos alucinados, contava com ele nuvens esculpidas e transformadas em todas as coisas do mundo e contava-lhe as suas aventuras mirambolantes com estranhas personagens, fixando-o sempre à espera da reacção do rapaz.

Ele, deslumbrado, amara Alice desde o início. Reconhecia inteligência nas suas palavras e sonhos surreais, mas era sobretudo o olhar daquela menina que o cativava. Alice parecia transportar todos os seus pensamentos para a órbita ocular e despejava em cascata todos os sentimentos que lhe afluiam ao coração. Por isso, se Alice era mágica, Carlos era o espectador atento, deliciado com a metamorfose constante.

Ela sorria sempre, desviando-lhe da testa a melena castanha clara que pendia teimosamente e que ele constantemente soprava para que não o incomodasse.

- Nunca me vais deixar, Alice?

- Porque perguntas isso?

- Não sei, tenho medo de te perder no meio desse teu universo inconstante. Tenho medo que um dia já não contes comigo todas as nuvens do céu.

- Não sejas tolo. Claro que não me vais perder. – respondia Alice sem convicção alguma. E afastava-lhe novamente a madeixa pendente que lhe dava um ar bastante atraente. Lembrava um daqueles príncipes da Grécia Antiga. Era bonito, de uma compleição atlética e os olhos, de um verde luminoso, ansiavam a cada minuto por um carinho de Alice.

- Claro que não me vais perder. Eu amo-te, tu sabes disso. – dizia, encostando a sua testa à de Carlos.

Nesse memo momento que podia ser imortalizado num qualquer quadro renascentista, Alice desviou o olhar inclinando-se sobre o ombro de Carlos e sorriu. O mesmo sorriso maroto e infantil regressava à sua face.

Pousada numa flor do pessegueiro que lhes fazia sombra naquela tarde de estio, uma borboleta canina lacrimejava com a claridade do sol que a transtornava. Peluda e soltando desesperados latidos, esvoaçava em direcção a Alice.

- Nunca te vou perder, pois não, meu amor? – insistiu Carlos.

- Claro que não! Claro que não! - e enxotou o cão alado que por ali rodopiava na intenção de morder a própria cauda.

AS TRÊS AMIGAS, por Cláudia Cruz Catarino



- Anda connosco, Sílvia! Não fiques aí pasmada a olhar os lilases! Vem ter connosco, amiga!!!!!!!

Tinha sido sempre assim. Desde sempre. O apelo da natureza e das cores sugestivas que emanam dos campos em flor sempre exercera um fascínio arrebatador sobre Sílvia. Sempre a fizera ausentar-se de forma absoluta, flutuar, sentir a sua alma desprender-se do seu corpo e rodopiar por entre folhas e borboletas e pássaros e pinceladas de luz que se aninhavam nesta imagem imaculada e tão irreal.

- Anda connosco, Sílvia! Anda! Tira os sapatos que corres mais depressa. Vamos chegar lá acima primeiro! Vais ficar para trás, amiga!!!!!!

Todos os anos nos primeiros dias de Primavera as três amigas juntavam os cestos de verga transbordantes de pretextos para os sentidos e rumavam ao campo que principiava a tarefa de verdejar e florir.

Eram três jovens bonitas que amavam a vida e pareciam querer vivê-la o mais intensamente possível, cuidando que todos os momentos ficassem registados na película virtual que habitava as suas memórias.

Rosa era a mais madura, parecia já ter nascido adulta. Gostava de ler Dickens e Tolstoi e raramente estava arredada de uma conversa em que a cultura geral fosse indispensável.

-Pára, Rosa, estás a aborrecer-me! – gritava Laura. Deixa-me em paz! Não quero meditar, não quero reflectir, não quero medir as consequências. Quero viver!!!! – e soltava uma gargalhada estridente que contagiava as amigas, desarmando-as de qualquer intenção de manter a expressão firme e sisuda.

- Ah, ah, ah, ah!!!!! Vais ter de usar óculos amiga! Vais, vais! Não páras de ler! Dou-te mais uns tempos e vais transformar-te numa toupeira de olhinhos fechados à procura da luz!

- Anda cá já, Laura! Vou puxar-te essa trança horrorosa, vais ver quem é a toupeira, vais ver os óculos! Anda cá, já!!!!

E deixavam-se cair, ausentes, na erva fofa que atapetava os campos primaveris.

Chegavam a passar horas a fio nestas tropelias e risos infantis em corpos de mulheres.

Laura era a mais extrovertida de todas. Atrevida por natureza, já tinha encetado diversas aventuras que haviam preocupado as amigas, mas, ao contrário dos receios de Sílvia e de Rosa, a vida ainda não a tinha magoado a sério. Parecia possuir uma energia inesgotável e competir entre pares com as forças da natureza.

Um dia, convencera um dos miúdos mais tímidos da turma a ir ver o pôr-do-sol no alto do penhasco à beira da praia. Ele, encolhido e cabisbaixo, declinou o convite, argumentando que os pais o iam buscar à escola e daí por meia hora já lá estariam, mas quando deu por ele, já tinha sido arrastado por um braço e ignorado na expressão das suas vontades.

A meio do caminho, entre solavancos e sacudidelas ainda lembrava que os pais o esperavam, mas para Laura nada era mais divertido do que corromper os receosos.

- Há gente que tem medo de tudo - dizia ela. Medo de correr, de respirar, de cair, de rolar no chão, de nadar no Inverno, de soltar gargalhadas, de amar alguém…

Assim sendo, sentia-se deliciada e quase como que incumbida de realizar a missão de mostrar aos receosos o outro lado da vida, ensinando-os a descontrair.

Chegados ao penhasco, Laura estendeu a mão ligeiramente humedecida e puxou o miúdo para junto de si.

- Anda! Senta-te aqui ao pé de mim!

Do alto do penhasco enorme e altivo a paisagem era absolutamente vertiginosa. Completamente ausentes da noção de perigo, as pernas de Laura balançavam tombadas no vazio.

- Não!!! É um precipício! – gritava o rapaz, aterrorizado.

- Não sejas medricas. Olha para mim. Vês? Eu não tenho medo. Basta que tenhas cuidado e vais ver que vale a pena. Anda, senão amanhã conto à escola inteira que não tens coragem e que é preciso uma rapariga para te ensinar a ser valente.

Muito a medo, mas motivado pelo orgulho agora ferido, o rapaz franziu a expressão. Olhos, boca, nariz, tudo desapareceu num redemoinho que, de repente, lhe surgiu na face e lhe engoliu a feição ao mesmo tempo que o petrificava. Sentou-se muito devagar, de pernas esticadas. Só os pés ficaram de fora, não se atrevendo a manifestar qualquer tipo de actividade.

- Por amor de Deus.... Endireita-te, rapaz. Ainda apanhas alguma entorse! – e arrebatou-o com um rompante para junto de si. Ele gemia baixinho tomado por um terror ácido que o corroia enquanto Laura soltava as suas típicas gargalhadas ao mesmo tempo que o abanava ininterruptamente.

- Estás a ver que consegues... Respira fundo. Vá! Agora, lentamente, abre os olhos. Consegues ver lá ao fundo aquele pontinho a luzir? É um farol. Guia os barcos que se aproximam da costa e entram nas nossas águas, mas eu gosto de imaginar que é uma estrela que caiu do céu e ficou a flutuar à tona do rio. Talvez vivam lá sereias encantadas ou elfos marinhos, se é que eles existem...

O rapaz tinha todos os sentidos adormecidos. O medo tinha-lhe gelado os membros e a boca estava tão seca que não conseguia articular palavra alguma. Porém, os olhos continuavam a captar imagens, embora o seu cérebro não as conseguisse descodificar.

De facto, nunca tinha estado perante tamanha beleza, mas também nunca tinha sentido tanto terror, tanta aflição. Era sempe tão organizado e calculava tão rigorosamente o seu futuro, mas, ali, naquele momento, acabara-se o talento para a estratégia inteligente ou a perspicácia infalível. Nem sabia se iria voltar a andar, nem imaginava se iria continuar a viver...

Por detrás das suas figuras, surgiu, então, o barulho acelerado de veículos automóveis. Vários. Diferentes, com certeza, pelo som díspar que cada um produzia.

Laura virou a face divertida, ainda entretida com a história do pontinho de luz a flutuar na água e deu de caras com um autêntico arraial de gente que se aproximava de si.

À frente, a encabeçar a multidão, destacava-se um homem alto e louro que se encaminhava lentamente, mas a passos largos, dela e do rapaz.

- Calma – disse o homem. Vai tudo correr bem. Não se mexam. Fechem os olhos. Quando os abrirem, já vão estar seguros. Calma.

- Está-se a passar! – pensou Laura. Mas que circo vem a ser este? – gritou, já um pouco nervosa. E, num salto, pôs-se de pé, puxando o braço do rapaz lasso e imóvel, que era, assim, peluche inanimado na sua mão.

Um casal de meia-idade, com um semblante carregado pela aflição correu a resgatá-lo. A senhora, pequenina e muito redondinha, chorava e soltava uivos estridentes que incomodavam ao mesmo tempo que o senhor, pai do rapaz provavelmente, não se cansava de exclamar:

- Isto não fica assim, minha menina! Terás o devido castigo!

Ao fundo, nos últimos lugares de uma plateia improvisada sobre a ravina, Sílvia e Rosa permaneciam expectantes, assistindo à cena. Ansiosas. Jamais incrédulas ou atónitas. Conheciam bem demais a amiga e sabiam que a sua natureza irrequieta facilmente propiciava estes vendavais inesperados para os outros mas perfeitamente aceitáveis para elas.

Correram para junto da amiga e regressaram as três de mãos dadas no carro da directora da escola, uma senhora intratável e nada compreensiva que se preparava para mandar Laura para casa por uns dias.

- A escola é um sítio de aprendizagem e motivação para a vida. Não pode ser um lugar onde um colega rapta outro e quase põe a sua vida em perigo. Jamais! Jamais permitirei que tal volte a acontecer! Vou suspendê-la durante uma semana. Vai pensar na sua vida! – e agitava o pulso cheio de pulseiras com pendentes que produziam um barulho de chocalho irritante.

Enquanto Sílvia e Rosa ouviam quietas o ralhete da directora, Laura lançava o hálito quente no vidro do carro e escrevia o seu nome, apagando-o depois com a manga do casaco e repetindo a acção vezes sem conta. Tinha-se ausentado dali. Desligara os sentidos e funcionava a meio gás, só com a imaginação. Por isso, não estava ali, estava na sua estrela predilecta, aquela que flutuava à tona da água e era morada para sereias e elfos marinhos.

No dia seguinte, lá estavam sentados à frente da directora os pais de Laura. As três amigas ficaram do lado de fora do gabinete, aguardando o veredicto final, mas Laura era a que menos preocupada parecia. Fez e desfez a trança cor de mel e riu das caras das amigas, deixando-as furiosas.

Meia hora depois de terem entrado, os pais de Laura sairam do gabinete da Directora que se desfazia em amabilidades:

- Até à próxima, senhor Menezes! Passe bem, senhora Menezes! Foi um prazer!

Incrédulas, Sílvia e Rosa assistiam áquele desfilar de boas maneiras e compreensão nunca antes vistas na Directora, enquanto fixavam Laura que exibia um sorriso sarcástico embora cabisbaixo.

- Em casa falamos, Laura Menezes. Em casa falamos. – ameaçou o pai.

- Não se apoquentem mais, senhores, a Laurinha fica bem connosco. Fiquem descansados. – repetia a Directora.

Laurinha??? - indagaram as raparigas entre olhares duvidosos.

À medida que os pais de Laura se iam afastando, as duas amigas olhavam incrédulas, encolhendo os ombros e franzindo o sobrolho:

- Então, senhora Directora, a Laura vai para casa?

- Claro que não! Por favor.... a Laurinha é uma menina inteligente e generosa. O que se passou não vai voltar a repetir-se. Com toda a certeza. Vá meninas, vão estudar, vá! Já estiveram aqui muito tempo.

Por conseguinte, o facto do pai da Laura exercer um cargo de grande responsabilidade na Câmara tinha feito a Directora transformar-se numa pedagoga de primeira, compreensiva para com a personalidade especial de Laura e disposta a prestar todo o tipo de ajuda.

Este foi apenas um dos muitos incidentes que preocuparam Rosa e Sílvia. Muitos outros se seguiram. Todos propiciados pela alma agitada de Laura que não tinha maldade, mas precipitava tempestades. Tempestades acalmadas pelo cargo que o pai ocupava, mais do que pelo amor e atenção que devia à filha.

- Corre, Sílvia! Não fiques para trás! Por favor, amiga, deixa de molengar! Tira os sapatos, já te disse! Corres melhor.

Rosa bem se esforçava, mas era difícil espevitar a energia ténue de Sílvia.

Já no alto da pequena serra onde haviam decidido estender a toalha axadrezada do piquenique, Laura acenava sem parar em jeito de vitória merecida na corrida ao palácio encantado.

Adoravam aquele lugar quase mágico. Mesmo no topo da pequena serra, como se de uma aguarela desbotada se tratasse, erguia-se sumptuosamente uma construção antiga em ruínas. Dizia-se por ali que em tempos havia sido a residência de uma família abastada que, não deixando herdeiros, partiu sem apontar quem perpetuasse o calor de um lar outrora ardente em sentimentos e vivências.

Era frequente ver as três amigas por ali. Conheciam todos os recantos daquela moradia. As escadas interiores em caracol, os restos de um jardim de Inverno de onde ainda brotavam acácias amarelas e dálias brancas e o recanto mais encantado de todos - o quarto no sótão, onde ainda permanecia, embora em avançado estado de degradação, um espelho oval envolto numa moldura em talha dourada com dois anjos roliços no topo, empunhando trompetas e anunciando boa ventura.

Tantas vezes se olharam naquele espelho. À vez, iam contemplando as suas imagens reflectidas no espelho desgastado.

- Ui! – exclamava Laura sempre inundada de espontaneidade – Que velhas! Ah, ah, ah ah! Eu envelheci! Vocês estão velhinhas!

- Chega-te para lá, Laura! Deixa-me ver! – reclamava Rosa – Pois é, que esquisito…. Brrrr… Não quero ficar velha!

- Velhotinhas!!!! – gritava Laura, rodopiando à volta das amigas. E abraçava-as com ternura na certeza de que iriam passar por tudo juntas.

O estado de degradação do espelho contrastava com a juventude florescente das três amigas. Todas tão bonitas, de pele macia, olhos brilhantes e cabelos viçosos.

Sílvia era, sem dúvida, a mais bela das três. Parecia saída de um fresco renascentista. O seu sorriso perfeito lembrava as pinceladas magistrais de Boticelli ou Rafael. Tudo nela estava em sintonia. Tudo em comunhão precisa com a perfeição estética. O nariz afunilado, a boca pequena, o pescoço esguio, o colo macio e simétrico e até os cabelos dourados e os olhos de um azul celeste contribuíam para que simbolizasse a visão da mulher clássica, quase petrarquista.

Mas o espelho era feroz na projecção do envelhecimento. Quando se colocavam diante dele, as três amigas arrepiavam a expressão ao vislumbrar manchas amareladas e imprecisão de contornos nas suas peles imaculadas.

Vamos, para a sala! – sugeria Rosa.

E assim, entre gargalhadas e correrias desciam as escadas que se transformavam em escorrega animado por onde deslizavam alegremente até à ampla assoalhada que abrigava a sala de estar com uma lareira enorme ao fundo e janelas corridas com portadas majestosas embora muito danificadas pelo tempo. Dos reposteiros ainda presos ao estuque pendiam tecidos esfarrapados que deixavam antever a anterior existência de requintadas cortinas de uma textura sublime e nobres gravuras.

- Mas o tempo tudo desgasta, não é? – suspirou Sílvia.

O tempo arreda de nós os sonhos e esgota-se de uma forma irredutível. Perante ele nada podemos. Passa veloz, bruscamente e não nos deixa alternativa. Não o apanhamos, por muito que o queiramos prender entre os braços ou encerrá-lo numa caixa dourada e fechada a sete chaves com ferrolho inviolável.

O tempo gera vida, mas é também ele que a arranca de nós. É o tempo que incita o bater do coração minúsculo que inicia a sua actividade, gerando vida e é ele que o faz parar cansado e desgastado de tanto trotar dentro do peito agora desprendido e encortiçado.

- Anda daí, Sílvia! Tira os sapatos, amiga! Vês os lilases depois. Não te cansas de os olhar?

- Anda, já cá estamos há tanto tempo! Queres que vá aí abaixo buscar-te, amiga? Vá. Eu vou aí. Eu dou-te a mão. Anda. Estamos à tua espera!

Ao longe, ouviam-se claramente as gargalhadas estridentes de Laura. Rosa exibia um olhar sereno de sorriso terno nos lábios e um livro de Dickens na mão.

Sílvia fixou os olhos nos lilases viçosos mesmo aos seus pés. Eram tão bonitos, meu Deus… Trouxera-lhe a neta no dia anterior envoltos em película de celofane.

- Tira-lhes o plástico, meu anjo. Deixa-os respirar. Ficam mais bonitos assim, despidos de ornamentos. São tão naturalmente belos… - pedira Sílvia.

- Anda, amiga! Vamos ficar aqui o dia todo? Dá-nos a tua mão. Vá, estamos aqui. Nós ajudamos!

Sílvia suspirou delicadamente e fechou os olhos com tranquilidade enquanto se despedia dos seus lilases.

Sem receio, estendeu a mão enrugada para as suas amigas que a abraçaram carinhosamente, afinal haviam feito a promessa de que estariam sempre juntas. Sempre.

- Que saudades, amiga! Estávamos a ver que nunca mais chegavas….

Nesse mesmo momento, o tempo encarregou-se de fechar a porta e Sílvia partiu com os lilases a seus pés.