quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Combatente


O senhor Almeida é um daqueles raros exemplos de um combatente convicto que está nesta vida, sobretudo, para lutar. Guerreiro destemido e implacável, o Almeida traz no olhar o brilho incandescente dos heróis genuínos que habitam o nosso imaginário infantil e alentam o nosso devir, inspirando atitudes nobres e decididas.

Aos setenta e dois anos, conserva a voz grave e poderosa, outrora tão valiosa em tempos de combate que é, inevitavelmente, tempo de sobrevivência. Mas só nos olhos perdura a bravura outrora empunhada. O corpo, esse, já treme e verga a cada passo que dá. As pálpebras descaídas e lassas abrigam-lhe as órbitas, mas quase já não as seguram. As mãos, trôpegas e arqueadas vacilam ao iniciar a escrita, e a boca, já tão sumida por entre uma barba abundante e crespa, move-se sem grande sintonia com a velocidade incrível a que o seu cérebro continua a operar.

Triste fado o deste combatente. Noutros tempos, as melenas de um castanho muito claro pendiam-lhe sobre os ombros largos e varonis. Os olhos rasgados e expressivos inundavam-lhe a face rubra e os dentes, qual mármore macio e muito branco, compunham-lhe a imagem de um perfeito Adónis português.

As jovens desviavam o olhar para ele e sonhavam com o herói, o destemido, o bravíssimo Almeida e ele, embriagado com a vaidade, conquistava-as como se de uma luta a travar se tratasse.

Quis o destino que o galante se apaixonasse por uma mulher mais velha. É que no fogo ardente constante em que os seus vinte anos o faziam viver só aquela o completava. O Almeida, apesar de jovem, já tinha descoberto que esta era a tal, a que o preenchia, que o amaria como nenhuma outra, a que, para além dos prazeres mais mundanos que lhe havia de proporcionar, seria a única capaz de lhe segurar a mão pela vida a fora, para sempre.

Fizerem juras de amor eterno quando se apaixonaram. Para ela, ele era um misto de coragem desmedida e necessidade constante de amparo. Amparo que ela sonhava dar-lhe. Para ele, ela era o céu estrelado em que ele podia tocar. Aos seus olhos, todas as maravilhas do mundo pareciam convergir para aquela mulher.

De facto, a Maria da Glória, Glorinha, como ele tão carinhosamente a trata, era uma mulher muito interessante. Elegante, sem ser magra, bonita sem ser demasiado bela. Os cabelos negros caiam-lhe em cachos macios pelas costas esguias e os olhos verdes traziam-lhe um ar enigmático ao rosto comprido e muito feminino.

Tinha o hábito de perfumar suavemente o pescoço e o interior dos pulsos com um odor de almíscar e flor de algodão e quando passava, o seu cheiro imortalizava-a. Para o Almeida, era odor que hipnotizava para depois alucinar. Nenhuma das outras rapariguinhas jovens com os seus aromas frescos a flor de laranjeira e jasmim haviam despertado nele tamanho desejo, tão grande encantamento. Mas, a Glória…. a Glória era outro universo, um mundo altivo que ele estava decidido a conquistar.

Hoje, volvidos cinquenta anos (meio século, meu Deus!) o Almeida e a Glorinha continuam enamorados. Ele com setenta e dois, ela com oitenta e três… Precisam um do outro como o dia exige que o sol nasça e o mar anseia que a brisa lhe toque suavemente.

Quando fala na sua amada, na sua doce companheira, os olhos do Almeida transbordam uma luz leitosa que lembra as águas cálidas do rio que o viu crescer. Dá-lhe banho, penteia-lhe os cabelos e, todas as manhãs, desperta-a com um chá e um beijo quente, embora trémulo.

Todos os Verões, vão em passeio pelo país e jamais aceitam que a vida cessou as hipóteses de descoberta.

Às vezes, nessas viagens derradeiras que avizinham uma etapa que se impõe terminar, param o carro num lugar privilegiado, de onde possam observar o pôr-do-sol ardente, tão fogoso como as suas almas ainda crepitantes. Encostam as cabeças, olham-se nos olhos cavados pelo tempo e o Almeida beija a sua Glorinha mesmo no interior do seu pulso, onde ainda pode sentir com prazer o cheiro do almíscar e da flor de algodão…

Cláudia Cruz Catarino

Pequenos Horrores


Quando chegou, trazia consigo o cansaço de uma vida que arrastava com dificuldade.

Os olhos, de uma cor aguada e indefinida, deixavam adivinhar um passado demasiado penoso e que jamais revelaria por palavras. Afinal, elas nunca seriam suficientes… nunca dariam conta de tudo aquilo que se havia passado, das dores tremendas que havia sentido, dos sofrimentos desmedidos, das visões horrendas de um inferno terreno.

Para lá da órbita ocular, um cérebro crepitante ainda fumegava. Sim, porque se notava que já houvera incêndio naquela alma outrora refulgente. Mas, a vida foi-se encarregando de jogar porções de água envenenada que, à vez, iam tortuosamente apagando o fogo radioso que dantes aquecia.

Silenciosamente, o desespero foi-se apoderando daquela vida e enterrou com requintes de crueldade a esperança, a fé e a crença num amanhã misericordioso. Entregou-se, então, a todos os prazeres mórbidos que sempre se transformam em horrores solitários repletos de desilusão e decadência mortais. Álcool, drogas, abandono de si mesmo. Afastou todos aqueles que amava, fez ruir o seu pequeno mundo privado e deixou-se afogar no fel que ele próprio gerava a cada dia que passava.

Nem sei como é que este pobre resistiu a tanto. No corpo, traz marcas profundas, irreparáveis que nem deixam adivinhar-lhe o semblante de quando era jovem, mas é no espírito que mais impera o desgaste. É lá, lá, onde se formam as emoções e se aninham os sentimentos. É lá que a tragédia impera e fustiga ainda e é nos seus olhos inconstantes que tudo acontece diante de nós.

Quando encetei conversa com ele, confesso que me senti um pouco assustada. Retraí-me, porque aquela figura quase dantesca, a princípio, dá medo. O cabelo desgrenhado, a boca com uma dentição em pouca quantidade, os olhos ensombrados, cavados, ora vazios, ora transbordantes. Arrepiei-me, de facto, confesso. E, depois, passados uns momentos de conversa com ele, envergonhei-me da minha reacção inicial, porque dentro daquela carcaça maltratada, dentro daquele crânio desconcertado, mora um ser humano em potência a quem a vida parece estar a dar a tão desejada derradeira oportunidade.

Todos os dias vem ter connosco e, quando não vem, dedica-se arduamente àquilo que lhe é solicitado. Escreve, reflecte e assim vai purgando os males que o corroem numa sinfonia surda, mas castradora e agonizante.

Bem sei que não diz tudo, ainda lhe dói brutalmente tocar em determinadas feridas, mas a expiação vai acontecendo todos os dias sob o nosso olhar incrédulo perante a capacidade humana.

Há dias, mostrou-me uma carta singela que guarda como tesouro precioso e delicado. Tem a dimensão de uma oração divina que, colocada junto do coração e rezada silenciosamente, dá vista aos cegos e voz aos que nada são capazes de pronunciar. Está escrita numa letra redonda e feminina de caracteres muito juntinhos e alinhados. Traz palavras de conforto e incentivo e apela ao bom senso ao mesmo tempo que reforça o orgulho e contentamento sinceramente sentidos. Mas, o mais central e explosivo é a ternura derramada na expressão «Amo-te muito, paizinho e estou sempre contigo ainda que longe, fisicamente». Arrasa-nos, no bom sentido, é claro. E arrasa aquele pobre dilacerado pelo arrependimento que é como mordedura de cobra que mata lentamente.

Duras provações, estas que o ser humano enfrenta sem nunca ter sido preparado para nelas deambular. E, tudo isto remete-me, invariavelmente, para a reflexão exigida quando somos espectadores de uma história assim. É urgente fecharmos os olhos, num impulso introspectivo, e procurarmos todos os predicados valiosos que habitam em nós e nos tornam humanos. Só os bons, só aqueles que geram vida, só aqueles que confortam, que acendem a luz necessária, só aqueles que fazem de nós seres infinitamente solidários e, por isso, tão humanos.

(Gosto de acreditar que, na batalha dos lados Bom e Mau que todos abrigamos, o lado mais divino, ainda que, numa luta renhida, possa sempre levar a melhor. Pelo menos, tenho tido o privilégio de constatar - e, por isso, não se trata de um laivo de romantismo exacerbado - que isso é bem possível).

Cláudia Cruz Catarino

Hannah


Conheci a Hannah quando tinha acabado de entrar neste novo desafio profissional.

Chegou de mansinho, num português africano com sabor a mar e a sol quente.

A doçura dos seus olhos muito negros exprimia-se em uníssono com a pele escura e seca pela vida de trabalho duro que deixava antever.

Sofria do coração. Ironia do destino quando o coração em causa me parecia tão bom, tão humanamente saudável.

Tinha filhos e netos, uma família inteira que contava com ela e a quem ela entregava toda a sua dedicação e sabedoria. Para além disto, ainda tinha a generosidade de trabalhar com crianças diferentes, daquelas que só de ouvirmos os problemas que carregam, arrepiamos e franzimos a expressão. Cozinhava para elas a minha doce Hannah e temperava cada refeição com as especiarias que cultivava na sua alma que era solo fértil em bondade e dádiva.

Lembro-me que trazia sempre um sorriso franco embora tímido e a subserviência característica de quem nunca se achou melhor que ninguém. Agradecia-me todas as minhas acções, ainda que banais ou automáticas e quando pronunciava o meu nome, fazia questão de frisar cada sílaba « Que-láu-di-a…». Ainda a oiço ao telefone, desculpando-se por não poder comparecer a uma reunião agendada, sempre tão humilde, sempre tão amável.

Uma vez, chegou-me cansada, ofegante para não se atrasar. O coração traiçoeiro, que já a tinha levado à mesa de operações por duas vezes, teimava em fatigá-la e comprometer-lhe a respiração. Neste estado, era ainda mais difícil compreender-lhe o português afectado pelo dialecto africano que às vezes me transportava para o universo dos nativos.

Era uma verdadeira festa quando estávamos juntas. Aquela alegria tão primordial, tão ausente de malícia, deixava-me completamente embevecida e a empatia era mesmo inevitável. Ríamos, brincávamos sem maldade, sem dissabores, sem desconfiança, trocávamos histórias de vida, preocupações, angústias, mas felicidades também.

Ela perguntava-me sempre pelos meus «mininos» que dizia tão lindos quando os olhava nas fotografias e, por confiar em mim, levava consigo os netinhos que a fixavam, divertidos na complacência da sua limitação infantil. Para mim, guardavam expressões cúmplices e sorrisos marotos que ondulavam ao sabor das marés que as minhas palavras pareciam originar.

«Cumprimentém à dotôra, mininos!», exclamava Hannah no seu tom firme, mas delicado. Eles esgueiravam-se por entre as mesas e as cadeiras em manifestação provocatória e quase sempre me pediam bolachas doces, tão doces como os seus olhinhos brilhantes, tão doces como o semblante da avó. E, no final, o beijo lambuzado na minha bochecha era a moeda de troca a par com os sorrisos que transbordavam um misto de inocência e tropelias que se avizinhavam.

Era com orgulho e brio que Hannah falava da sua cultura, tão cara e tão imensamente sua. As fotos que me trazia eram para mim imagens extraídas de um filme quase surrealista. Fatos pomposos, coloridos, repletos de remates e purpurina; cabelos eriçados num penteado extravagante ou cobertos por um turbante vistoso; os corpos adornados por jóias magníficas e ouro, muito ouro; a maquilhagem sofisticada e intensa que se destacava nas fotos já envelhecidas ou danificadas porque mal acondicionadas. E, por último, a pochete, minimalista, mas de um estilo quase barroco pelos dourados e drapeados que exibia sumptuosamente.

Era quase como estar diante de uma dupla personalidade. Como é que alguém tão simples e desprovido de vaidade pode passar por esta metamorfose? «São os côstumis, dotôra, são os côstumis….», justificava a minha Hannah. E assim é. Na comunidade à qual ela pertencia, cada dia de festa nunca era celebrado pela metade. Se o ambiente era festivo, havia que fazer jus e elevá-lo sempre à categoria de cerimónia! E, por isso, a minha simples cozinheira, avó, mãe e protectora dos aflitos saía do casulo e transformava-se numa linda borboleta sempre que a ocasião assim o exigia.

Quando chegámos ao fim, reconhecemos que, efectivamente, a sua maior dificuldade era a expressão escrita. Constatação injusta para quem comunica oralmente com tanto empenho e expressividade. Mas, os anos de infância roubada sem ir à escola impunham agora as suas consequências e, de facto, era penoso o acto da escrita para a minha Hannah. Fugiam-lhe as palavras, multiplicavam-se as hipóteses de escolha nas situações ortográficas e as palavras não davam conta do manancial de sabedoria generosa que se agitava no intelecto deste ser humano maravilhoso.

Há pessoas que nos tocam e, por isso, se tornam especiais, mas há aquelas que permanecem dentro de nós e nos guiam, porque nos ensinam quando entram de mansinho, num português africano com sabor a mar e a sol quente, mudando para sempre o nosso modo egoísta e narcísico de enfrentar o mundo.

Cláudia Cruz Catarino

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Doce Pátria



Era uma lojinha pequena e muito amistosa que servia de ganha pão a um casal de ex-emigrantes que, após anos a fio a laborar em terras alheias, resolvera, agora, regressar à pátria calorosa e redimida.

Lá dentro, cinco ou seis mesas decoradas com um gosto supostamente cosmopolita, atendendo a que se fazia notar a necessidade de evidenciar as modas trazidas «lá de fora», como gostavam de sublinhar ao comum transeunte que por ali passasse para saciar a sede ou beliscar qualquer coisinha…

Ao fundo, na parede mais destacada, erguia-se uma sumptuosa pintura que dava conta de uma paisagem característica do lugar de onde haviam regressado – um lago enorme de um azul pastoso com imensos verdes eléctricos em volta e, no centro, um imenso repuxo acompanhado da respectiva legenda que reportava à cidade retratada e que dava nome ao estabelecimento comercial.
Era de facto extraordinário comprovar o quanto a alma portuguesa é nata e nunca abandona aqueles que por aqui nascem e por aqui são iniciados nas artes de se ser lusitano. Aquela pintura berrante e repleta de tons em esmalte, os mesmos que cobrem as embarcações do Sado, jamais poderia ser proveniente do sítio ali imortalizado.

Não porque os outros sejam melhores ou menos afectados. Simplesmente, porque os outros, aqueles que ocupavam metade do meu campo de visão dentro daquele exíguo cafezinho, não eram, de todo, portugueses, nem tão pouco setubalenses. Nas veias, não lhes corre o folclore tradicional, o perfume fresco do pescado acabadinho de chegar nas traineiras sorridentes que cantam e dançam por entre as ondas do Rio Azul. Nas veias, jamais lhe correram os gritos das gaivotas, o cheiro tóxico das tintas que retocam as pequenas embarcações atracadas na doca e que são princesas imaculadas nas mãos dos homens-artistas que lhes dão nova vida, tingindo-as de luz.

Há anos atrás, ambos haviam chorado lágrimas sem fim ao tomarem a dolorosa decisão de ir para fora, deixando a sua amada pequenina aos cuidados de uma avó. A bebé, ainda redondinha e rosada, tinha apenas dois aninhos quando viu os pais saírem, à procura de um futuro melhor. Para eles. Para ela. E aquele minúsculo cafezinho situado na baixa de Setúbal era agora troféu erguido em jeito glorioso de merecida vitória. Era a prova de que tinha valido a pena. De que não tinha sido em vão.

Eram um casal curioso. Ambos bem constituídos e de olhinhos brilhantes e bochechas coradas, irradiavam calor humano e uma conversa absolutamente irresistível. Ela, principalmente. Num sotaque sadino carregado, desfiava alegremente o rol de acontecimentos dos últimos dias. O último casamento, a próxima loja a abrir nas redondezas, as doenças dos que por ali paravam e até as mortes daqueles a quem nem tínhamos chegado a conhecer, mas que eram primos de um tio do amigo da irmã….

Quando lá ia debicar um saboroso café, perdia-me naquele manancial de histórias, historinhas e historietas contadas em jeito de epopeia. Não pelo seu conteúdo, não pela densidade semântica das frases enunciadas, não pelo potencial literário (na altura tema central dos meus estudos), mas pela capacidade dramática, pelo tom eloquente, pelo pensamento único acompanhado do gesto adequado, da expressão conveniente.
A pronúncia arrastada dos rrrrrs, aquele terminar das sílabas que nunca acabavam em «o», mas em «e» - o menine trrrrôxe-me o sapate. Tudo tão meu, tudo tão familiar, tão envolto em memórias de uma infância vivida entre as Fontaínhas e Tróino, entre peles queimadas pelo sol que a enruga e esbate, entre cigarros fumados até à última baforada e histórias com sabor a sal, areia e conchas.

Guardo no meu coração as melhores recordações de quando era criança feliz e livre. Quantas vezes descia as escadinhas da estacada que dá para o rio e onde o meu pai se distraía enquanto pescava. Quantas vezes me imaginei a escorregar nos limos macios e a cair mesmo no último degrau e mergulhar de cabeça dentro de água. Molhar os pés era a delícia suprema, trazer pedrinhas e conchinhas a tarefa obrigatória em dia que acompanhasse o meu pai. Subia e descia as escadas vezes sem conta e controlava com perícia os peixes que se iam acumulando dentro do balde que o meu pai havia providenciado para o efeito. Lamentava sempre a sua sorte, concluía que não queria tal destino para mim e assim afastava a ideia peregrina de querer ser sereia. Tantas vezes me assolou esse desejo tão feminino. Imaginava-me a deambular pelo fundo do mar com cabelos enormes e um corpo meio mulher, meio peixe. Sempre com uma flor por cima da orelha, sempre com olhos azuis…

Que fantasias habitarão os corações dos meninos que nunca viram o mar? Que algas se agitam no fundo das suas almas térreas?

Aquele casal simpático e afável, sempre risonho, sempre gentil, trouxera consigo um som diferente nas sílabas agora musicadas, trouxera retratos de outras paisagens, memórias de outros cursos de água, mas a doce pátria e a cidade natal acenavam de dentro deles continuamente, intimamente, de um modo desconcertante e incontornável. No fundo, aquele rio suíço eléctrico que a parede central ostentava no ponto mais estratégico do cafezinho mais não era do que o Sado vaidoso e ondulante, o único pedaço de mar que os seus corações realmente conheciam e sinceramente amavam.

Cláudia Cruz Catarino

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Antes e Depois


Vivi a minha infância ainda num tempo salutar em que se corre na rua e se brinca até ao pôr-do-sol sem receios, sem impossibilidades.

Naquela altura radiosa e descomprometida, brincava aos crescidos, fazendo refeições apetitosas com pedrinhas e todo o tipo de plantas que crescessem ali por perto da minha casa. Eram jogos de faz-de-conta sofisticados em que o mesmo objecto assumia funções diversas e radicalmente diferentes umas das outras. Por conseguinte, aquela pedrinha ora servia de refeição, ora cumpria a troca monetária exigida na ida ao supermercado ora se transformava em arma de arremesso quando o tema da brincadeira eram os cavaleiros que salvavam as princesas e, para tal, havia que desafiar os maus.

Naquela altura, tudo acontecia a fingir e a fingir íamos assimilando o mundo que chegava a nós pela porta dos sentidos.

Passei os meus primeiros anos de auto-consciência dividida entre dois espaços afastados geograficamente, mas próximos nos afectos deliciosos que ambos ofereciam – a minha casa, em Tróino e a casa da minha bisavó nas Fontaínhas.

Por um lado, a minha casa, o meu quintal, a minha rua. A minha rua era um mundo, o universo todo contido num punhado de metros quadrados, elevados à categoria de reino quando a brincadeira assim o exigia.

Em noites de Verão abafadas, lembro-me tão bem de me sentar no degrau da porta de um vizinho já franzido que me deliciava com as suas histórias. Já não me recordo dos temas de conversa, mas vem-me muitas vezes à memória o quanto me deliciava a sua companhia.

Nos Santos Populares, saltávamos a fogueira, divertidos, extasiados. Eu e o meu irmão, tão pequenito, na época, competíamos na categoria de salto mais alto e mais comprido. Que manhosa era eu, nesta altura, tão ciente de que seria a vencedora, não me separassem dele seis robustos anos…. Ainda sinto o cheiro a madeira e o crepitar alegre daquele fogo animado por canções e rimas populares. O cheiro acre dos orégãos que temperavam a indispensável caracolada e que nós tanto apreciávamos…

O quintal da minha avó era outro espaço encantado. Lá habitavam os nossos animais, e sempre tivemos muitos: cães, gatos, galinhas, patos, todos companheiros de brincadeiras, todos protagonistas na nossa imaginação proeminente.

Não éramos muitas crianças naquele lugar, mas eu, o meu irmão e o meu primo lá nos íamos empenhando em dar vida suficiente àquele espaço. Subíamos ao limoeiro, à ameixeira (com enxerto de damascos!), às arrecadações…. Naqueles tempos éramos mesmo autênticos trepadores! Nada nos escapava, o mundo inteiro era nosso. Desafiávamos os nossos limites, testávamo-nos incessantemente e descobríamos à nossa custa, à custa de muitos arranhões, esfoladelas e nódoas negras aquilo que podíamos e aquilo que não podíamos, o Bem e o Mal, o perigoso e o permitido.

O outro recanto da minha infância, reporta ao bairro das Fontaínhas, sítio caro à minha família materna, uma vez que esse ramo genealógico tem lá a sua origem.

As Fontaínhas é um bairro pequeno, tipicamente setubalense, que mistura pregões no ar, com cheiro a maresia e gente que vive da faina do mar. Lá morava a minha querida bisavó, figura constante no meu coração e para sempre protectora dos meus pensamentos. Lembrá-la é recordar a dedicação à família, a conversa fluida, a inocência calorosa de quem não conhece os livros, porque não os consegue ler, mas é douta na ciência da vida.

A sua casa, escondida num minúsculo bataréu, convidava à entrada, sempre de porta aberta e disponível. Lembro-me que lá dentro encontrava uma sala ampla dividida em dois espaços distintos – sala de estar e cozinha e uma outra divisão – o quarto. Noutros tempos, moraram lá os meus bisavós mais os seus seis filhos, três rapazes e três raparigas, entre elas a minha avozinha. Sempre felizes.

Na mesa da sala, decorada com o indispensável naperon e uma jarra com flores artificiais, havia sempre um frasco de «Tofina» com uns deliciosos rebuçados embrulhados em papel branco. Mal chegava lá, sorrateiramente e sem ninguém se aperceber, tirava um ou dois e que bem me sabiam. Só mais tarde vim a aperceber-me que, afinal, aqueles doces rebuçados eram pastilhas para a acidez no estômago! Ainda me vem um sorriso aos lábios quando penso nisso.

Nas Fontaínhas, também a rua contígua à casa da minha avó era muito apetecível: ladeiras, uma escadaria enorme, muros para trepar, enfim, um paraíso para a criança que eu era, na altura. Quando para lá ia, brincava até não poder mais. Se fechar os olhos ainda consigo ouvir o apito do comboio que ali passa perto. Estremecia tudo à sua passagem. Os copos tiniam, os móveis abanavam e nós éramos sacudidos e aturdidos pelo som estrondoso. Mas, era tão divertido!

Hoje, passadas décadas sobre estes momentos encantados de alegre irresponsabilidade infantil, pergunto-me quais serão as recordações que os meus filhos guardarão quando, também eles atingirem os trinta.

Vivem encurralados, num tempo de medos, de ansiedades, de super pais e super mães que tudo controlam porque os amam e tudo fazem para que nada de mal lhes aconteça. Mas, questiono-me muitas vezes sobre o direito à privacidade, à individualidade, a esse aprender por si próprio que é tão construtivo e edificante.

Hoje, vigiamos os nossos filhos em todas as suas tarefas. Não saem sozinhos, raramente brincam sem estar a ser observados e, ainda que de forma não intencional, controlamos as suas atitudes ao pormenor. Não deixamos que guerreiem, evitamos as quedas, não permitimos que trepem às árvores e observem lá do alto, numa outra perspectiva, o mundo em seu redor. Limitamos, portanto, as suas descobertas ao nosso pensamento adulto altamente socializado e esquecemo-nos que uma criança tem direito à irreverência, à inconstância, a cair e a erguer-se numa dinâmica de aprendizagem contínua.

O meu filho mais velho tem hoje quase dez anos e contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que já se magoou a sério e, se faz um arranhão, eu quase desfaleço – meu querido menino! Na idade dele, quantas vezes já tinha eu caído com a minha bicicleta, quantos esfolões nos joelhos e nos cotovelos por conta de me atirar das escadas do meu quintal. Eram cinco degraus e a lógica era ir saltando cada vez mais alto…. Tenho pequenas cicatrizes nas canelas, e nos joelhos que remanescem ainda dessa altura.

Curioso…. Naquela altura, partíamos a cabeça. E havia quem batesse recordes absolutos de tantas vezes que tinha de ir ao hospital ou ao posto médico cosê-la! Hoje, raramente isso acontece (e ainda bem! – diz este coraçãozinho de mãe aflita e ciosa das suas crias). Mas, insisto, embora desconhecendo o remédio para tal ansiedade, que consequências teremos desta educação superprotectora que dá pouco espaço às aprendizagens feitas à maneira da criança, sem supervisões ou aconselhamentos adultos constantes?

Preocupa-me isto e preocupa-me, sobretudo, porque enquanto mãe, enquanto ser totalmente rendido ao amor que sinto pelos meus filhos, não sei lidar com esta situação. Lamento que eles não tenham hipótese de fazer jantarinhos com pedrinhas e brincar aos cavaleiros que salvam princesas sem o dedo castrador do adulto que ora proíbe, ora entra na brincadeira, conspurcando-a com o seu espírito crescido (como se fosse possível recuperar a infância perdida!).

Sim, porque hoje é muito comum ouvirmos os pais dizer que brincam com os filhos. Os especialistas aconselham-no e eu, pessoalmente, também o faço. Mas, embora acredite que os pequenos apreciem a nossa companhia, ela não substitui, de modo algum, a de outra criança ausente de censuras, estereótipos e preocupações… Nós já não somos crianças. É um facto. Ser criança é um estado que todos experimentamos mas ao qual não conseguimos regressar, por muito poéticos, metafóricos ou sonhadores que possamos ser. Trazemos connosco uma experiência de vida que não se apaga, uma personalidade definida e isso é condição inegável para nos ser vedada a entrada no universo descomprometido das crianças. Ao entrar nele, contaminamo-lo com o nosso conhecimento das coisas, com a nossa incapacidade de nos surpreendermos perante o desconhecido que, afinal, tão bem conhecemos. Profanamos um mundo sem igual, onde se é feliz sem pensar nisso e onde o espanto é uma constante e um motivo de evolução.

Bem sei que, nos dias de hoje, vivemos dicotomias persistentes em relação ao que esperamos das nossas crianças.

Fruto de uma sociedade mais escolarizada e tida como a «sociedade da informação», por um lado, exacerbamos o nosso papel de pais e educadores e sufocamos os nossos filhos com pedagogias incisivas e direccionadas à importância de se ser criança, ao mesmo tempo que, por outro lado, exigimos delas desempenhos intelectuais engenhosos e sofisticados próprios dos adultos.

Testamos a sua inteligência continuamente, oferecemos-lhes computadores, pens, MP4s, comandos de televisão e DVD. Estimulamos neles a importância do gosto pela leitura, pela escrita e pela pesquisa activa dos temas culturais mais relevantes. Eles reagem. Magistralmente. Como seres dotados de extraordinárias competências de inteligência e adaptabilidade, superam-se e superam-nos, como não podia deixar de ser. É a evolução geracional a cumprir a sua missão de aperfeiçoamento. Mas, perdem em natureza, perdem em chão e em pedrinhas e em árvores que se trepam e em muros que se pulam e fogueiras que se saltam e em joelhos esfolados e em rebuçados para a acidez no estômago….

Bem sei que os tempos mudam e toda esta reflexão faz prova disso. Bem sei que este é o sinal claro de que estamos a tentar cumprir o nosso papel e a prepará-los o melhor que sabemos e podemos para o futuro que se avizinha e que será, sobretudo, o deles. Um futuro diferente do nosso, ainda mais competitivo, ainda mais sublimado na tecnologia e nas máquinas que tudo operam. E quando assim penso, descanso um pouco. Não posso é deixar de lamentar que eles não conheçam, como eu conheci, os prazeres de viver despreocupadamente, sem responsabilidades sufocantes e desempenhos de excelência envoltos em contornos de obrigatoriedade…

Cláudia Cruz Catarino