
O senhor Almeida é um daqueles raros exemplos de um combatente convicto que está nesta vida, sobretudo, para lutar. Guerreiro destemido e implacável, o Almeida traz no olhar o brilho incandescente dos heróis genuínos que habitam o nosso imaginário infantil e alentam o nosso devir, inspirando atitudes nobres e decididas.
Aos setenta e dois anos, conserva a voz grave e poderosa, outrora tão valiosa em tempos de combate que é, inevitavelmente, tempo de sobrevivência. Mas só nos olhos perdura a bravura outrora empunhada. O corpo, esse, já treme e verga a cada passo que dá. As pálpebras descaídas e lassas abrigam-lhe as órbitas, mas quase já não as seguram. As mãos, trôpegas e arqueadas vacilam ao iniciar a escrita, e a boca, já tão sumida por entre uma barba abundante e crespa, move-se sem grande sintonia com a velocidade incrível a que o seu cérebro continua a operar.
Triste fado o deste combatente. Noutros tempos, as melenas de um castanho muito claro pendiam-lhe sobre os ombros largos e varonis. Os olhos rasgados e expressivos inundavam-lhe a face rubra e os dentes, qual mármore macio e muito branco, compunham-lhe a imagem de um perfeito Adónis português.
As jovens desviavam o olhar para ele e sonhavam com o herói, o destemido, o bravíssimo Almeida e ele, embriagado com a vaidade, conquistava-as como se de uma luta a travar se tratasse.
Quis o destino que o galante se apaixonasse por uma mulher mais velha. É que no fogo ardente constante em que os seus vinte anos o faziam viver só aquela o completava. O Almeida, apesar de jovem, já tinha descoberto que esta era a tal, a que o preenchia, que o amaria como nenhuma outra, a que, para além dos prazeres mais mundanos que lhe havia de proporcionar, seria a única capaz de lhe segurar a mão pela vida a fora, para sempre.
Fizerem juras de amor eterno quando se apaixonaram. Para ela, ele era um misto de coragem desmedida e necessidade constante de amparo. Amparo que ela sonhava dar-lhe. Para ele, ela era o céu estrelado em que ele podia tocar. Aos seus olhos, todas as maravilhas do mundo pareciam convergir para aquela mulher.
De facto, a Maria da Glória, Glorinha, como ele tão carinhosamente a trata, era uma mulher muito interessante. Elegante, sem ser magra, bonita sem ser demasiado bela. Os cabelos negros caiam-lhe em cachos macios pelas costas esguias e os olhos verdes traziam-lhe um ar enigmático ao rosto comprido e muito feminino.
Tinha o hábito de perfumar suavemente o pescoço e o interior dos pulsos com um odor de almíscar e flor de algodão e quando passava, o seu cheiro imortalizava-a. Para o Almeida, era odor que hipnotizava para depois alucinar. Nenhuma das outras rapariguinhas jovens com os seus aromas frescos a flor de laranjeira e jasmim haviam despertado nele tamanho desejo, tão grande encantamento. Mas, a Glória…. a Glória era outro universo, um mundo altivo que ele estava decidido a conquistar.
Hoje, volvidos cinquenta anos (meio século, meu Deus!) o Almeida e a Glorinha continuam enamorados. Ele com setenta e dois, ela com oitenta e três… Precisam um do outro como o dia exige que o sol nasça e o mar anseia que a brisa lhe toque suavemente.
Quando fala na sua amada, na sua doce companheira, os olhos do Almeida transbordam uma luz leitosa que lembra as águas cálidas do rio que o viu crescer. Dá-lhe banho, penteia-lhe os cabelos e, todas as manhãs, desperta-a com um chá e um beijo quente, embora trémulo.
Todos os Verões, vão em passeio pelo país e jamais aceitam que a vida cessou as hipóteses de descoberta.
Às vezes, nessas viagens derradeiras que avizinham uma etapa que se impõe terminar, param o carro num lugar privilegiado, de onde possam observar o pôr-do-sol ardente, tão fogoso como as suas almas ainda crepitantes. Encostam as cabeças, olham-se nos olhos cavados pelo tempo e o Almeida beija a sua Glorinha mesmo no interior do seu pulso, onde ainda pode sentir com prazer o cheiro do almíscar e da flor de algodão…
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