terça-feira, 21 de setembro de 2010

AS TRÊS AMIGAS, por Cláudia Cruz Catarino



- Anda connosco, Sílvia! Não fiques aí pasmada a olhar os lilases! Vem ter connosco, amiga!!!!!!!

Tinha sido sempre assim. Desde sempre. O apelo da natureza e das cores sugestivas que emanam dos campos em flor sempre exercera um fascínio arrebatador sobre Sílvia. Sempre a fizera ausentar-se de forma absoluta, flutuar, sentir a sua alma desprender-se do seu corpo e rodopiar por entre folhas e borboletas e pássaros e pinceladas de luz que se aninhavam nesta imagem imaculada e tão irreal.

- Anda connosco, Sílvia! Anda! Tira os sapatos que corres mais depressa. Vamos chegar lá acima primeiro! Vais ficar para trás, amiga!!!!!!

Todos os anos nos primeiros dias de Primavera as três amigas juntavam os cestos de verga transbordantes de pretextos para os sentidos e rumavam ao campo que principiava a tarefa de verdejar e florir.

Eram três jovens bonitas que amavam a vida e pareciam querer vivê-la o mais intensamente possível, cuidando que todos os momentos ficassem registados na película virtual que habitava as suas memórias.

Rosa era a mais madura, parecia já ter nascido adulta. Gostava de ler Dickens e Tolstoi e raramente estava arredada de uma conversa em que a cultura geral fosse indispensável.

-Pára, Rosa, estás a aborrecer-me! – gritava Laura. Deixa-me em paz! Não quero meditar, não quero reflectir, não quero medir as consequências. Quero viver!!!! – e soltava uma gargalhada estridente que contagiava as amigas, desarmando-as de qualquer intenção de manter a expressão firme e sisuda.

- Ah, ah, ah, ah!!!!! Vais ter de usar óculos amiga! Vais, vais! Não páras de ler! Dou-te mais uns tempos e vais transformar-te numa toupeira de olhinhos fechados à procura da luz!

- Anda cá já, Laura! Vou puxar-te essa trança horrorosa, vais ver quem é a toupeira, vais ver os óculos! Anda cá, já!!!!

E deixavam-se cair, ausentes, na erva fofa que atapetava os campos primaveris.

Chegavam a passar horas a fio nestas tropelias e risos infantis em corpos de mulheres.

Laura era a mais extrovertida de todas. Atrevida por natureza, já tinha encetado diversas aventuras que haviam preocupado as amigas, mas, ao contrário dos receios de Sílvia e de Rosa, a vida ainda não a tinha magoado a sério. Parecia possuir uma energia inesgotável e competir entre pares com as forças da natureza.

Um dia, convencera um dos miúdos mais tímidos da turma a ir ver o pôr-do-sol no alto do penhasco à beira da praia. Ele, encolhido e cabisbaixo, declinou o convite, argumentando que os pais o iam buscar à escola e daí por meia hora já lá estariam, mas quando deu por ele, já tinha sido arrastado por um braço e ignorado na expressão das suas vontades.

A meio do caminho, entre solavancos e sacudidelas ainda lembrava que os pais o esperavam, mas para Laura nada era mais divertido do que corromper os receosos.

- Há gente que tem medo de tudo - dizia ela. Medo de correr, de respirar, de cair, de rolar no chão, de nadar no Inverno, de soltar gargalhadas, de amar alguém…

Assim sendo, sentia-se deliciada e quase como que incumbida de realizar a missão de mostrar aos receosos o outro lado da vida, ensinando-os a descontrair.

Chegados ao penhasco, Laura estendeu a mão ligeiramente humedecida e puxou o miúdo para junto de si.

- Anda! Senta-te aqui ao pé de mim!

Do alto do penhasco enorme e altivo a paisagem era absolutamente vertiginosa. Completamente ausentes da noção de perigo, as pernas de Laura balançavam tombadas no vazio.

- Não!!! É um precipício! – gritava o rapaz, aterrorizado.

- Não sejas medricas. Olha para mim. Vês? Eu não tenho medo. Basta que tenhas cuidado e vais ver que vale a pena. Anda, senão amanhã conto à escola inteira que não tens coragem e que é preciso uma rapariga para te ensinar a ser valente.

Muito a medo, mas motivado pelo orgulho agora ferido, o rapaz franziu a expressão. Olhos, boca, nariz, tudo desapareceu num redemoinho que, de repente, lhe surgiu na face e lhe engoliu a feição ao mesmo tempo que o petrificava. Sentou-se muito devagar, de pernas esticadas. Só os pés ficaram de fora, não se atrevendo a manifestar qualquer tipo de actividade.

- Por amor de Deus.... Endireita-te, rapaz. Ainda apanhas alguma entorse! – e arrebatou-o com um rompante para junto de si. Ele gemia baixinho tomado por um terror ácido que o corroia enquanto Laura soltava as suas típicas gargalhadas ao mesmo tempo que o abanava ininterruptamente.

- Estás a ver que consegues... Respira fundo. Vá! Agora, lentamente, abre os olhos. Consegues ver lá ao fundo aquele pontinho a luzir? É um farol. Guia os barcos que se aproximam da costa e entram nas nossas águas, mas eu gosto de imaginar que é uma estrela que caiu do céu e ficou a flutuar à tona do rio. Talvez vivam lá sereias encantadas ou elfos marinhos, se é que eles existem...

O rapaz tinha todos os sentidos adormecidos. O medo tinha-lhe gelado os membros e a boca estava tão seca que não conseguia articular palavra alguma. Porém, os olhos continuavam a captar imagens, embora o seu cérebro não as conseguisse descodificar.

De facto, nunca tinha estado perante tamanha beleza, mas também nunca tinha sentido tanto terror, tanta aflição. Era sempe tão organizado e calculava tão rigorosamente o seu futuro, mas, ali, naquele momento, acabara-se o talento para a estratégia inteligente ou a perspicácia infalível. Nem sabia se iria voltar a andar, nem imaginava se iria continuar a viver...

Por detrás das suas figuras, surgiu, então, o barulho acelerado de veículos automóveis. Vários. Diferentes, com certeza, pelo som díspar que cada um produzia.

Laura virou a face divertida, ainda entretida com a história do pontinho de luz a flutuar na água e deu de caras com um autêntico arraial de gente que se aproximava de si.

À frente, a encabeçar a multidão, destacava-se um homem alto e louro que se encaminhava lentamente, mas a passos largos, dela e do rapaz.

- Calma – disse o homem. Vai tudo correr bem. Não se mexam. Fechem os olhos. Quando os abrirem, já vão estar seguros. Calma.

- Está-se a passar! – pensou Laura. Mas que circo vem a ser este? – gritou, já um pouco nervosa. E, num salto, pôs-se de pé, puxando o braço do rapaz lasso e imóvel, que era, assim, peluche inanimado na sua mão.

Um casal de meia-idade, com um semblante carregado pela aflição correu a resgatá-lo. A senhora, pequenina e muito redondinha, chorava e soltava uivos estridentes que incomodavam ao mesmo tempo que o senhor, pai do rapaz provavelmente, não se cansava de exclamar:

- Isto não fica assim, minha menina! Terás o devido castigo!

Ao fundo, nos últimos lugares de uma plateia improvisada sobre a ravina, Sílvia e Rosa permaneciam expectantes, assistindo à cena. Ansiosas. Jamais incrédulas ou atónitas. Conheciam bem demais a amiga e sabiam que a sua natureza irrequieta facilmente propiciava estes vendavais inesperados para os outros mas perfeitamente aceitáveis para elas.

Correram para junto da amiga e regressaram as três de mãos dadas no carro da directora da escola, uma senhora intratável e nada compreensiva que se preparava para mandar Laura para casa por uns dias.

- A escola é um sítio de aprendizagem e motivação para a vida. Não pode ser um lugar onde um colega rapta outro e quase põe a sua vida em perigo. Jamais! Jamais permitirei que tal volte a acontecer! Vou suspendê-la durante uma semana. Vai pensar na sua vida! – e agitava o pulso cheio de pulseiras com pendentes que produziam um barulho de chocalho irritante.

Enquanto Sílvia e Rosa ouviam quietas o ralhete da directora, Laura lançava o hálito quente no vidro do carro e escrevia o seu nome, apagando-o depois com a manga do casaco e repetindo a acção vezes sem conta. Tinha-se ausentado dali. Desligara os sentidos e funcionava a meio gás, só com a imaginação. Por isso, não estava ali, estava na sua estrela predilecta, aquela que flutuava à tona da água e era morada para sereias e elfos marinhos.

No dia seguinte, lá estavam sentados à frente da directora os pais de Laura. As três amigas ficaram do lado de fora do gabinete, aguardando o veredicto final, mas Laura era a que menos preocupada parecia. Fez e desfez a trança cor de mel e riu das caras das amigas, deixando-as furiosas.

Meia hora depois de terem entrado, os pais de Laura sairam do gabinete da Directora que se desfazia em amabilidades:

- Até à próxima, senhor Menezes! Passe bem, senhora Menezes! Foi um prazer!

Incrédulas, Sílvia e Rosa assistiam áquele desfilar de boas maneiras e compreensão nunca antes vistas na Directora, enquanto fixavam Laura que exibia um sorriso sarcástico embora cabisbaixo.

- Em casa falamos, Laura Menezes. Em casa falamos. – ameaçou o pai.

- Não se apoquentem mais, senhores, a Laurinha fica bem connosco. Fiquem descansados. – repetia a Directora.

Laurinha??? - indagaram as raparigas entre olhares duvidosos.

À medida que os pais de Laura se iam afastando, as duas amigas olhavam incrédulas, encolhendo os ombros e franzindo o sobrolho:

- Então, senhora Directora, a Laura vai para casa?

- Claro que não! Por favor.... a Laurinha é uma menina inteligente e generosa. O que se passou não vai voltar a repetir-se. Com toda a certeza. Vá meninas, vão estudar, vá! Já estiveram aqui muito tempo.

Por conseguinte, o facto do pai da Laura exercer um cargo de grande responsabilidade na Câmara tinha feito a Directora transformar-se numa pedagoga de primeira, compreensiva para com a personalidade especial de Laura e disposta a prestar todo o tipo de ajuda.

Este foi apenas um dos muitos incidentes que preocuparam Rosa e Sílvia. Muitos outros se seguiram. Todos propiciados pela alma agitada de Laura que não tinha maldade, mas precipitava tempestades. Tempestades acalmadas pelo cargo que o pai ocupava, mais do que pelo amor e atenção que devia à filha.

- Corre, Sílvia! Não fiques para trás! Por favor, amiga, deixa de molengar! Tira os sapatos, já te disse! Corres melhor.

Rosa bem se esforçava, mas era difícil espevitar a energia ténue de Sílvia.

Já no alto da pequena serra onde haviam decidido estender a toalha axadrezada do piquenique, Laura acenava sem parar em jeito de vitória merecida na corrida ao palácio encantado.

Adoravam aquele lugar quase mágico. Mesmo no topo da pequena serra, como se de uma aguarela desbotada se tratasse, erguia-se sumptuosamente uma construção antiga em ruínas. Dizia-se por ali que em tempos havia sido a residência de uma família abastada que, não deixando herdeiros, partiu sem apontar quem perpetuasse o calor de um lar outrora ardente em sentimentos e vivências.

Era frequente ver as três amigas por ali. Conheciam todos os recantos daquela moradia. As escadas interiores em caracol, os restos de um jardim de Inverno de onde ainda brotavam acácias amarelas e dálias brancas e o recanto mais encantado de todos - o quarto no sótão, onde ainda permanecia, embora em avançado estado de degradação, um espelho oval envolto numa moldura em talha dourada com dois anjos roliços no topo, empunhando trompetas e anunciando boa ventura.

Tantas vezes se olharam naquele espelho. À vez, iam contemplando as suas imagens reflectidas no espelho desgastado.

- Ui! – exclamava Laura sempre inundada de espontaneidade – Que velhas! Ah, ah, ah ah! Eu envelheci! Vocês estão velhinhas!

- Chega-te para lá, Laura! Deixa-me ver! – reclamava Rosa – Pois é, que esquisito…. Brrrr… Não quero ficar velha!

- Velhotinhas!!!! – gritava Laura, rodopiando à volta das amigas. E abraçava-as com ternura na certeza de que iriam passar por tudo juntas.

O estado de degradação do espelho contrastava com a juventude florescente das três amigas. Todas tão bonitas, de pele macia, olhos brilhantes e cabelos viçosos.

Sílvia era, sem dúvida, a mais bela das três. Parecia saída de um fresco renascentista. O seu sorriso perfeito lembrava as pinceladas magistrais de Boticelli ou Rafael. Tudo nela estava em sintonia. Tudo em comunhão precisa com a perfeição estética. O nariz afunilado, a boca pequena, o pescoço esguio, o colo macio e simétrico e até os cabelos dourados e os olhos de um azul celeste contribuíam para que simbolizasse a visão da mulher clássica, quase petrarquista.

Mas o espelho era feroz na projecção do envelhecimento. Quando se colocavam diante dele, as três amigas arrepiavam a expressão ao vislumbrar manchas amareladas e imprecisão de contornos nas suas peles imaculadas.

Vamos, para a sala! – sugeria Rosa.

E assim, entre gargalhadas e correrias desciam as escadas que se transformavam em escorrega animado por onde deslizavam alegremente até à ampla assoalhada que abrigava a sala de estar com uma lareira enorme ao fundo e janelas corridas com portadas majestosas embora muito danificadas pelo tempo. Dos reposteiros ainda presos ao estuque pendiam tecidos esfarrapados que deixavam antever a anterior existência de requintadas cortinas de uma textura sublime e nobres gravuras.

- Mas o tempo tudo desgasta, não é? – suspirou Sílvia.

O tempo arreda de nós os sonhos e esgota-se de uma forma irredutível. Perante ele nada podemos. Passa veloz, bruscamente e não nos deixa alternativa. Não o apanhamos, por muito que o queiramos prender entre os braços ou encerrá-lo numa caixa dourada e fechada a sete chaves com ferrolho inviolável.

O tempo gera vida, mas é também ele que a arranca de nós. É o tempo que incita o bater do coração minúsculo que inicia a sua actividade, gerando vida e é ele que o faz parar cansado e desgastado de tanto trotar dentro do peito agora desprendido e encortiçado.

- Anda daí, Sílvia! Tira os sapatos, amiga! Vês os lilases depois. Não te cansas de os olhar?

- Anda, já cá estamos há tanto tempo! Queres que vá aí abaixo buscar-te, amiga? Vá. Eu vou aí. Eu dou-te a mão. Anda. Estamos à tua espera!

Ao longe, ouviam-se claramente as gargalhadas estridentes de Laura. Rosa exibia um olhar sereno de sorriso terno nos lábios e um livro de Dickens na mão.

Sílvia fixou os olhos nos lilases viçosos mesmo aos seus pés. Eram tão bonitos, meu Deus… Trouxera-lhe a neta no dia anterior envoltos em película de celofane.

- Tira-lhes o plástico, meu anjo. Deixa-os respirar. Ficam mais bonitos assim, despidos de ornamentos. São tão naturalmente belos… - pedira Sílvia.

- Anda, amiga! Vamos ficar aqui o dia todo? Dá-nos a tua mão. Vá, estamos aqui. Nós ajudamos!

Sílvia suspirou delicadamente e fechou os olhos com tranquilidade enquanto se despedia dos seus lilases.

Sem receio, estendeu a mão enrugada para as suas amigas que a abraçaram carinhosamente, afinal haviam feito a promessa de que estariam sempre juntas. Sempre.

- Que saudades, amiga! Estávamos a ver que nunca mais chegavas….

Nesse mesmo momento, o tempo encarregou-se de fechar a porta e Sílvia partiu com os lilases a seus pés.

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