Desde criança sempre tivera o estranho hábito de olhar para as pessoas à sua volta e imaginá-las outras, com um aspecto diferente, uma roupagem oposta àquela com que se apresentavam e uma atitude diversa em relação à que exibiam naturalmente.
Vestia-as de muitas cores, despia-lhes as peles humanas e revestia-as de pêlos farfalhudos, penas sedosas ou escamas reluzentes e transformava-as dramaticamente, pincelando-as de imaginação e criatividade inesgotáveis.
Sempre fora assim. Para Alice, a Natureza existia para servir os seus devaneios artísticos que moldavam caprichosamente as imagens à sua volta, servindo-se de todas as paisagens captadas pela sua retina fotográfica.
- Anda, Alice! O que estás a fazer aí parada? – insistia a mãe. Estou com tanta pressa, filha! Voltamos cá amanhã, sim? Agora não pode mesmo ser, meu amor.
Alice sorria para a borboleta que esvoaçava à sua volta como se a conhecesse desde sempre e soltava risinhos amorosos de petiz embevecida com um qualquer espectáculo de magia.
Magia. Era isso…. Alice era uma perfeita mágica que, num toque de varinha, transformava todo o cenário à sua volta.
Ria para a borboleta, porque há muito que aquele insecto esvoaçante já não era borboleta, mas antes cachorro peludo agora alado. E como voava… Voava, ladrava e gania quando os raios de sol lhe batiam nos olhos e estes começavam a lacrimejar perante tanta claridade.
A pequena Alice tapava então a boca em jeito de reconhecida consciência da traquinice e, colocando o indicador esticadinho sobre os lábios rosados, pedia ao canino alado para cessar tamanha tolice.
De mão dada com a mãe apressada, Alice percorria a calçada que rapidamente se transformava em tapete cintilante e saltitava de pedrinha em pedrinha para não molhar os pés na água imaginária que a salpicava a cada pulo mais descuidado.
- És capaz de estar quieta Alice? – dizia a mãe já impaciente. O que é que se passa, filha? Anda como gente. Caramba, Alice, quando é que consigo chegar a casa? Não sabes que tenho de dar almoço ao teu pai e ao teu irmão? Por favor, filha, tenta compreender….
A mãe de Alice era uma senhora forte e robusta que há muito tinha perdido a fisionomia delicada característica dos seres femininos. A vida dura que levava apagara do seu semblante os contornos perfeitos e a frescura da juventude ao mesmo tempo que os múltiplos afazeres com que tinha de lidar diariamente haviam pincelado a sua tez de uma cor baça e acinzentada que desbotava o seu olhar pardacento. Era, no entanto, uma mulher valente, dedicada à família e, sobretudo à filha mais nova, Alice. Não sabia bem porquê, mas via na sua criança um tesouro delicado e frágil que temia ser usurpado pelas agruras da vida que transformam o belo num amontoado de circunstâncias atrozes e repletas de fealdade. Temia também que os outros não a compreendessem, não a soubessem aceitar tal e qual ela era. Sim, porque Alice era uma criança muito especial. Diferente, certamente. Mas, acima de tudo, especial.
Ao longo do caminho percorrido até a casa, Alice sorria constantemente para o seu companheiro alado ao mesmo tempo que sussurrava baixinho: «Vai, cão! Vai!» e salpicava-o com a água imaginária que corria debaixo dos seus pés, colocando as mãos em concha e abrindo-as depois em jeito de arremesso.
Não tardou a que o animal pousasse numa flor suculenta em néctar e por ali ficasse enquanto Alice acenava freneticamente, despedindo-se do seu estranho novo amigo.
E, assim, sempre pela mão da mãe, inclinou a cabecita em direcção ao céu imenso que cobria os seus passos. Lá em cima, nuvens de muitas formas povoavam o azul profundo, incitando a criatividade da pequena.
As nuvens eram as companheiras de Alice desde há muito tempo. Estavam sempre lá, fofas, multiformes e andantes e facilmente a imaginação da doce Alice transformava-as em todas as coisas do mundo.
- Mãe! Hoje depois de almoço, posso ir à gruta? – pedia Alice.
- À gruta, filha? Lá vens tu outra vez com isso. Caramba, filha, não me dás um minuto de descanso…. Eu já não te disse que a arrecadação não é uma gruta? E, para além disso, estão lá muitas coisas perigosas em que não podes mexer, já te disse várias vezes!
- Vá lá mãe! Deixa…. Vá lá! Eu não mexo
- Por favor, filha. A mãe já tem tantas preocupações…. Como é que eu consigo estar descansada em casa contigo enfiada na arrecadação? Como, meu Deus?
Pobre senhora… À medida que ia falando com a filha em tom de súplica, a pequena amuava e emudecia. De olhos fechados e punhos cerrados, avançava ao sabor do nada e tropeçava nos seus próprios pés em jeito de punição das atitudes maternas.
Desligava os sentidos e caminhava apenas com a imaginação que, por esta altura, já a fizera princesa aprisionada na torre de um palácio antigo com grilhões enferrujados à espera da sua chegada.
A mãe tentava ignorar, balbuciava agitadamente a expressão «valha-me Deus» e sacudia dos ombros o peso de um mundo só seu mas infinitamente volumoso e digno de ser aplacado por um Atlas potente e musculado que ela, definitivamente, não era.
Chegadas a casa, Alice sentou-se no degrau do poial da porta da rua, enquanto a mãe arrumava as compras e já a água fervia numa panela enorme capaz de dar de comer a um regimento.
Cá fora, a princesa agrilhoada pegara num pequeno ramo da ameixeira do quintal e desenhava na terra batida o companheiro alado que tinha conhecido no caminho para casa. Sorria, então, para ele e via-o a ganhar vida e movimento e a saltar daquele desenho e a rodopiar sobre si mesmo de forma a morder a própria cauda.
Tão agitada era a figura que Alice não continha o riso estridente e incontrolável.
- Ah! ah!ah! Não sejas tolo! Cão feio! Cão doido!
Tinha sete anos a nossa pequena Alice e sempre fora uma criança de fácil trato não fora a tendência para a aparente alucinação. Desenhava, cantava, dançava e, sobretudo, falava sozinha, num infindável mundo de faz-de-conta. Não tinha amigos, rejeitava as outras crianças e a mãe já se tinha acostumado às particularidades da filha. Tolerava-as, mas não as compreendia e remetia qualquer explicação para a idade imberbe da filha especial.
Eram uma família relativamente grande. A mãe, o pai e três filhos – Alice e dois irmãos mais velhos com os quais ela quase nem mantinha contacto embora vivessem na mesma casa.
O mais velho de todos, Manuel, estava para casar. Era um rapaz enorme, também de poucas falas e trabalhava com o pai no café da família. Tinha conhecido uma rapariga azeda e muito vaidosa mas apaixonara-se perdidamente e tudo fazia para a agradar.
O irmão do meio era o estudioso da casa. Devorava livros de matemática, física e química e aspirava a ser médico. Para os pais, era um orgulho sequer sonhar em ter um doutor na família e muitos dos sacrifícios feitos por todos eram em prol dos estudos do Arturzinho.
A casa, ampla e pouco ornamentada, exibia apenas uma panóplia variadíssima de flores secas em cima de cada móvel, no parapeito das janelas e no centro da mesa de refeições. Flores de todas as cores, de múltiplas formas e tamanhos que, de tantas e tão pouco usuais, roçavam a excentricidade.
Alice, no entanto, não gostava deste estranho hábito da mãe que teimava trazer natureza morta para dentro de casa. A natureza morta não tem energia, não faz sonhar, esgota-se na monotonia da última forma que assumiu e, por isso, Alice esquivava-se a sequer roçar o seu olhar criativo naqueles ramalhetes funestos.
- Mãeeeeeeeee!!!! Vou para a gruta! – gritava a petiz em jeito de ousadia assumida.
- Não vais não, Alice! Vamos para a mesa! Vai lavar as mãos!
- Brrrrrrrrrrrr!!!!!!! Não te oiço, mãe! Não te consigo ouviiiiir!!! Vou para a gruta!
E foi. De sorriso maroto e já descalça aproximava-se da arrecadação encantada que, transposta a sua porta, se transformava em gruta medonha, humedecida por veios de água fresca que por ali serpenteavam e tilintavam ao cair no chão.
Ping!| Ping! Ping! E Alice encetava a tão desejada incursão pelos recantos daquele espaço banal agora transfigurado em cenário soturno e repleto de mistérios apetecíveis ansiosos por ser descobertos até que, já quase a embrenhar-se, perdida, por entre as paredes rochosas daquela gruta imaginária viu-se surpreendida pela voz firme do pai que a arrancava, assim, do início daquela deliciosa deambulação.
- Já para a mesa, menina! Não te digo nem mais uma vez! Dás cabo da tua mãe! – e apontava na direcção da porta da cozinha, exaltado.
O pai de Alice era um homem humilde e trabalhador talhado para a função de chefe de família. Um pouco mais velho do que a mulher, a diferença, porém, mal se notava, tais eram os estragos que as ralações e dissabores haviam produzido na pobre senhora.
Ao contrário dos outros homens da vizinhança, sempre desejara uma filha, uma menina doce que embalasse a sua vida monótona e, ao mesmo tempo, apoiasse a mulher e se dedicasse à família. Por isso, quando lhe colocaram a filha nos braços, não conteve as lágrimas e proferiu as melhores palavras de agradecimento a Deus por tamanha dádiva. Nunca tinha despejado os seus sentimentos assim, daquele modo lamechas, por nenhum dos outros filhos rapazes. Mas, quando Alice nasceu, o mundo tornou-se, de repente, melhor, mais divino, mais envolto em beleza.
- É linda, mulher, a nossa menina! Tão linda! Não lhe vai faltar nada! Nunca! Vai ter tudo na vida! Nem que eu tenha de trabalhar noite e dia! – e assim, meio lúcido, meio alucinado ia navegando por um mar desconhecido que lhe aconchegava o coração.
Mas, os tempos foram passando e Alice, com a sua natureza imprevisível e muitas vezes inexplicável ia atordoando a pouca elasticidade que a mente do pai apresentava.
- Já à minha frente, Alice! Já! – gritava, encolerizado, perante o ar atónito da pequena que olhava fixamente a veia grossa e saliente do pescoço do pai que parecia querer saltar ao mesmo tempo que palpitava qual cavalo a trote.
Não tardou a que a sua imaginação a transportasse para dentro daquele cordão gigante e se visse a cambalear por entre paredes agitadas que não paravam de se mexer, derrubando-a a cada passo que intentava. Mas, rapidamente, voltou a si e atendeu aos pedidos do pai, seguindo, cabisbaixa, até à mesa de refeições.
Lá, esperava-a uma verdadeira comitiva. A mãe, ansiosa e de olhinhos meio fechados pela preocupação eminente, o irmão mais velho, sempre com um ar apático e ausente quebrado apenas pela chegada inesperada da noiva espevitada e o Arturzinho, o maravilhoso Arturzinho, sempre tão empenhado em ser melhor que toda a gente.
O pai entrou, tomou o seu lugar na cabeceira da mesa, fitou Alice nos olhos e torceu a cabeça na direcção do banquinho vermelho onde a menina costumava sentar-se. Muito devagar, mas sempre com os olhos postos nos do pai, Alice sentou-se calmamente e colocou um enorme guardanapo à volta do pescoço em jeito de babete.
- As minhas desculpas, menina Laura. Faça o favor de se sentar. Almoça connosco, com certeza? – questionou o pai em forçada simpatia para com a futura nora.
- Muito obrigada, Sr. Américo. Claro que sim, com todo o gosto. – anuiu rapidamente a rapariga, arrastando um banco até ao lugar mais perto do seu noivo embevecido.
Não se calou durante toda a refeição. Numa voz irritante e com um discurso que incluía guinchinhos de doninha pelo meio, ia sacudindo as mãos e agitando o grande rabo-de-cavalo que ostentava no topo da cabeça.
- É horrível… - pensou Alice. Blhaac! Que bicho tão feio! Demasiado feio... Então, num passe de magia, tratou de iniciar a metamorfose necessária.
Pôs-lhe um bico no meio da face e cobriu-lhe o corpo de penas amarelas e roxas. No topo da cabeça, o rabo de cavalo farfalhudo deu lugar a uma crista escarlate que pendia para um dos lados, exactamente para aquele em que se encontrava o irmão Manuel que quase sufocava com aquele pendente que se ia avolumando de cada vez que a rapariga falava.
- Ih, ih, ih, ih!! – divertia-se Alice.
- Pára! Olha que sufocas o meu irmão! – gritou.
Atónitos com a atitude da pequena, todas as personagens daquele Carnaval unilateral, fixaram Alice em jeito de merecida repreensão.
- Alice!!! Como te atreves? Como podes desrespeitar assim a minha noiva? – gritava de forma convicta o irmão, tomado pela paixão inconsciente que incita as mais exacerbadas atitudes.
- Já para o quarto, minha menina! Só sais de lá quando te disser! – ordenou o pai com a veia do pescoço ainda mais insinuante do que no episódio da gruta.
Alice levantou-se calmamente e dirigiu-se para o pequeno compartimento destinado a ser o seu quarto de dormir. Atrás de si, uma multidão inteira rendia-se à pesada consternação da rapriga do rabo-de-cavalo que, de tão chocada, abanava-se com um guardanapo em jeito de leque ao mesmo tempo que retorquia «Deixem lá, é apenas uma criança».
A entrada no quarto funcionava como a incursão num daqueles portais intergalácticos com que os filmes de ficção científica nos presenteiam.
Alice entrava, empurrada por uma qualquer força brutal que a impelia para aquele espaço e deixava para trás de si um mundo que não compreendia, que se esgotava em cada momento, esgotando-a a ela também.
Ali, no seu quarto-masmorra-prisão-palácio-gruta-floresta encantada tudo era possível. Não existiam críticas, punições, entraves e era na coexistência temperada de mundos diversos e regidos apenas pela fertilidade criativa que Alice encontrava o verdadeiro sentido da natureza mutante das coisas.
O tempo foi cumprindo o seu dever e passando veloz, alterando tudo à sua passagem. Era, aliás, o efeito do tempo bastante compreensível para Alice que tão bem conhecia a necessidade da mutabilidade dos cenários e das coisas que habitam à nossa volta. A mudança gera nova vida, dinâmicas renovadas, energias recarregadas e, para Alice, isso fazia todo o sentido.
Só isso, aliás, fazia sentido.
E assim a pequena Alice deu lugar a uma jovem robusta, de olhar sempre enigmático e postura fascinante pelo mistério que envolvia o seu semblante.
Claro que a espontaneidade pueril não era já tanta. Por muito que não concordasse, sabia que havia regras a cumprir para que podesse cohabitar com os pais e com os demais que com eles conviviam e, para além disso, tinha-se arrependido vezes sem conta da vergonha sentida que provocara na mãe quando, por várias vezes, a ignorava em frente aos vizinhos.
Amava-a acima de qualquer outra coisa e sabia que embora não a compreendesse, a mãe era aquela que mais a aceitava. Por isso, doía-lhe imenso saber que podia magoar aquela que era, sem dúvida, a sua melhor amiga.
- Mãezinha! Estás bonita, hoje, com esse vestido pareces uma rainha medieval imponente .
- Uma rainha medieval, filha? Só tu. Eu, uma rainha? Estás sempre a inventar – e encolhia os ombros, franzindo o olhar já anestesiado pela presença dos constantes devaneios de Alice.
- Calma, mãezinha. Estou a brincar. Que mal tem isso?
- Nenhum, meu amor. Nenhum. – e colocava-se em bicos de pés para beijar suavemente a bochecha rosada da filha que, entretanto, tinha ganho uma altura incrível e estava parecidíssima com o irmão Manuel.
- Mãe, vou sair com o Carlos. Não volto tarde, está bem?
- Sim, filha. Mas, por favor, não leves novamente o rapaz para a arrecadação. Está tudo tão desarrumado. O que é que ele vai pensar? Por favor, filha, como é que queres arranjar um marido a enfiá-lo dessa maneira numa arrecadação ferrujenta onde quase não conseguimos colocar um pé?
Alice sorria perante as preocupações da mãe. Sabia-as sinceras e bem intencionadas, mas, claro, não as aceitava, pois não lhe faziam sentido algum.
O Carlos era um amigo de infância. Embora não fosse propriamente talhada para a amizade fácil, Alice conseguira, desde sempre, cativar a atenção daquele menino, agora homem. Mostrava-lhe os seus sonhos alucinados, contava com ele nuvens esculpidas e transformadas em todas as coisas do mundo e contava-lhe as suas aventuras mirambolantes com estranhas personagens, fixando-o sempre à espera da reacção do rapaz.
Ele, deslumbrado, amara Alice desde o início. Reconhecia inteligência nas suas palavras e sonhos surreais, mas era sobretudo o olhar daquela menina que o cativava. Alice parecia transportar todos os seus pensamentos para a órbita ocular e despejava em cascata todos os sentimentos que lhe afluiam ao coração. Por isso, se Alice era mágica, Carlos era o espectador atento, deliciado com a metamorfose constante.
Ela sorria sempre, desviando-lhe da testa a melena castanha clara que pendia teimosamente e que ele constantemente soprava para que não o incomodasse.
- Nunca me vais deixar, Alice?
- Porque perguntas isso?
- Não sei, tenho medo de te perder no meio desse teu universo inconstante. Tenho medo que um dia já não contes comigo todas as nuvens do céu.
- Não sejas tolo. Claro que não me vais perder. – respondia Alice sem convicção alguma. E afastava-lhe novamente a madeixa pendente que lhe dava um ar bastante atraente. Lembrava um daqueles príncipes da Grécia Antiga. Era bonito, de uma compleição atlética e os olhos, de um verde luminoso, ansiavam a cada minuto por um carinho de Alice.
- Claro que não me vais perder. Eu amo-te, tu sabes disso. – dizia, encostando a sua testa à de Carlos.
Nesse memo momento que podia ser imortalizado num qualquer quadro renascentista, Alice desviou o olhar inclinando-se sobre o ombro de Carlos e sorriu. O mesmo sorriso maroto e infantil regressava à sua face.
Pousada numa flor do pessegueiro que lhes fazia sombra naquela tarde de estio, uma borboleta canina lacrimejava com a claridade do sol que a transtornava. Peluda e soltando desesperados latidos, esvoaçava em direcção a Alice.
- Nunca te vou perder, pois não, meu amor? – insistiu Carlos.
- Claro que não! Claro que não! - e enxotou o cão alado que por ali rodopiava na intenção de morder a própria cauda.
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