quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Antes e Depois


Vivi a minha infância ainda num tempo salutar em que se corre na rua e se brinca até ao pôr-do-sol sem receios, sem impossibilidades.

Naquela altura radiosa e descomprometida, brincava aos crescidos, fazendo refeições apetitosas com pedrinhas e todo o tipo de plantas que crescessem ali por perto da minha casa. Eram jogos de faz-de-conta sofisticados em que o mesmo objecto assumia funções diversas e radicalmente diferentes umas das outras. Por conseguinte, aquela pedrinha ora servia de refeição, ora cumpria a troca monetária exigida na ida ao supermercado ora se transformava em arma de arremesso quando o tema da brincadeira eram os cavaleiros que salvavam as princesas e, para tal, havia que desafiar os maus.

Naquela altura, tudo acontecia a fingir e a fingir íamos assimilando o mundo que chegava a nós pela porta dos sentidos.

Passei os meus primeiros anos de auto-consciência dividida entre dois espaços afastados geograficamente, mas próximos nos afectos deliciosos que ambos ofereciam – a minha casa, em Tróino e a casa da minha bisavó nas Fontaínhas.

Por um lado, a minha casa, o meu quintal, a minha rua. A minha rua era um mundo, o universo todo contido num punhado de metros quadrados, elevados à categoria de reino quando a brincadeira assim o exigia.

Em noites de Verão abafadas, lembro-me tão bem de me sentar no degrau da porta de um vizinho já franzido que me deliciava com as suas histórias. Já não me recordo dos temas de conversa, mas vem-me muitas vezes à memória o quanto me deliciava a sua companhia.

Nos Santos Populares, saltávamos a fogueira, divertidos, extasiados. Eu e o meu irmão, tão pequenito, na época, competíamos na categoria de salto mais alto e mais comprido. Que manhosa era eu, nesta altura, tão ciente de que seria a vencedora, não me separassem dele seis robustos anos…. Ainda sinto o cheiro a madeira e o crepitar alegre daquele fogo animado por canções e rimas populares. O cheiro acre dos orégãos que temperavam a indispensável caracolada e que nós tanto apreciávamos…

O quintal da minha avó era outro espaço encantado. Lá habitavam os nossos animais, e sempre tivemos muitos: cães, gatos, galinhas, patos, todos companheiros de brincadeiras, todos protagonistas na nossa imaginação proeminente.

Não éramos muitas crianças naquele lugar, mas eu, o meu irmão e o meu primo lá nos íamos empenhando em dar vida suficiente àquele espaço. Subíamos ao limoeiro, à ameixeira (com enxerto de damascos!), às arrecadações…. Naqueles tempos éramos mesmo autênticos trepadores! Nada nos escapava, o mundo inteiro era nosso. Desafiávamos os nossos limites, testávamo-nos incessantemente e descobríamos à nossa custa, à custa de muitos arranhões, esfoladelas e nódoas negras aquilo que podíamos e aquilo que não podíamos, o Bem e o Mal, o perigoso e o permitido.

O outro recanto da minha infância, reporta ao bairro das Fontaínhas, sítio caro à minha família materna, uma vez que esse ramo genealógico tem lá a sua origem.

As Fontaínhas é um bairro pequeno, tipicamente setubalense, que mistura pregões no ar, com cheiro a maresia e gente que vive da faina do mar. Lá morava a minha querida bisavó, figura constante no meu coração e para sempre protectora dos meus pensamentos. Lembrá-la é recordar a dedicação à família, a conversa fluida, a inocência calorosa de quem não conhece os livros, porque não os consegue ler, mas é douta na ciência da vida.

A sua casa, escondida num minúsculo bataréu, convidava à entrada, sempre de porta aberta e disponível. Lembro-me que lá dentro encontrava uma sala ampla dividida em dois espaços distintos – sala de estar e cozinha e uma outra divisão – o quarto. Noutros tempos, moraram lá os meus bisavós mais os seus seis filhos, três rapazes e três raparigas, entre elas a minha avozinha. Sempre felizes.

Na mesa da sala, decorada com o indispensável naperon e uma jarra com flores artificiais, havia sempre um frasco de «Tofina» com uns deliciosos rebuçados embrulhados em papel branco. Mal chegava lá, sorrateiramente e sem ninguém se aperceber, tirava um ou dois e que bem me sabiam. Só mais tarde vim a aperceber-me que, afinal, aqueles doces rebuçados eram pastilhas para a acidez no estômago! Ainda me vem um sorriso aos lábios quando penso nisso.

Nas Fontaínhas, também a rua contígua à casa da minha avó era muito apetecível: ladeiras, uma escadaria enorme, muros para trepar, enfim, um paraíso para a criança que eu era, na altura. Quando para lá ia, brincava até não poder mais. Se fechar os olhos ainda consigo ouvir o apito do comboio que ali passa perto. Estremecia tudo à sua passagem. Os copos tiniam, os móveis abanavam e nós éramos sacudidos e aturdidos pelo som estrondoso. Mas, era tão divertido!

Hoje, passadas décadas sobre estes momentos encantados de alegre irresponsabilidade infantil, pergunto-me quais serão as recordações que os meus filhos guardarão quando, também eles atingirem os trinta.

Vivem encurralados, num tempo de medos, de ansiedades, de super pais e super mães que tudo controlam porque os amam e tudo fazem para que nada de mal lhes aconteça. Mas, questiono-me muitas vezes sobre o direito à privacidade, à individualidade, a esse aprender por si próprio que é tão construtivo e edificante.

Hoje, vigiamos os nossos filhos em todas as suas tarefas. Não saem sozinhos, raramente brincam sem estar a ser observados e, ainda que de forma não intencional, controlamos as suas atitudes ao pormenor. Não deixamos que guerreiem, evitamos as quedas, não permitimos que trepem às árvores e observem lá do alto, numa outra perspectiva, o mundo em seu redor. Limitamos, portanto, as suas descobertas ao nosso pensamento adulto altamente socializado e esquecemo-nos que uma criança tem direito à irreverência, à inconstância, a cair e a erguer-se numa dinâmica de aprendizagem contínua.

O meu filho mais velho tem hoje quase dez anos e contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que já se magoou a sério e, se faz um arranhão, eu quase desfaleço – meu querido menino! Na idade dele, quantas vezes já tinha eu caído com a minha bicicleta, quantos esfolões nos joelhos e nos cotovelos por conta de me atirar das escadas do meu quintal. Eram cinco degraus e a lógica era ir saltando cada vez mais alto…. Tenho pequenas cicatrizes nas canelas, e nos joelhos que remanescem ainda dessa altura.

Curioso…. Naquela altura, partíamos a cabeça. E havia quem batesse recordes absolutos de tantas vezes que tinha de ir ao hospital ou ao posto médico cosê-la! Hoje, raramente isso acontece (e ainda bem! – diz este coraçãozinho de mãe aflita e ciosa das suas crias). Mas, insisto, embora desconhecendo o remédio para tal ansiedade, que consequências teremos desta educação superprotectora que dá pouco espaço às aprendizagens feitas à maneira da criança, sem supervisões ou aconselhamentos adultos constantes?

Preocupa-me isto e preocupa-me, sobretudo, porque enquanto mãe, enquanto ser totalmente rendido ao amor que sinto pelos meus filhos, não sei lidar com esta situação. Lamento que eles não tenham hipótese de fazer jantarinhos com pedrinhas e brincar aos cavaleiros que salvam princesas sem o dedo castrador do adulto que ora proíbe, ora entra na brincadeira, conspurcando-a com o seu espírito crescido (como se fosse possível recuperar a infância perdida!).

Sim, porque hoje é muito comum ouvirmos os pais dizer que brincam com os filhos. Os especialistas aconselham-no e eu, pessoalmente, também o faço. Mas, embora acredite que os pequenos apreciem a nossa companhia, ela não substitui, de modo algum, a de outra criança ausente de censuras, estereótipos e preocupações… Nós já não somos crianças. É um facto. Ser criança é um estado que todos experimentamos mas ao qual não conseguimos regressar, por muito poéticos, metafóricos ou sonhadores que possamos ser. Trazemos connosco uma experiência de vida que não se apaga, uma personalidade definida e isso é condição inegável para nos ser vedada a entrada no universo descomprometido das crianças. Ao entrar nele, contaminamo-lo com o nosso conhecimento das coisas, com a nossa incapacidade de nos surpreendermos perante o desconhecido que, afinal, tão bem conhecemos. Profanamos um mundo sem igual, onde se é feliz sem pensar nisso e onde o espanto é uma constante e um motivo de evolução.

Bem sei que, nos dias de hoje, vivemos dicotomias persistentes em relação ao que esperamos das nossas crianças.

Fruto de uma sociedade mais escolarizada e tida como a «sociedade da informação», por um lado, exacerbamos o nosso papel de pais e educadores e sufocamos os nossos filhos com pedagogias incisivas e direccionadas à importância de se ser criança, ao mesmo tempo que, por outro lado, exigimos delas desempenhos intelectuais engenhosos e sofisticados próprios dos adultos.

Testamos a sua inteligência continuamente, oferecemos-lhes computadores, pens, MP4s, comandos de televisão e DVD. Estimulamos neles a importância do gosto pela leitura, pela escrita e pela pesquisa activa dos temas culturais mais relevantes. Eles reagem. Magistralmente. Como seres dotados de extraordinárias competências de inteligência e adaptabilidade, superam-se e superam-nos, como não podia deixar de ser. É a evolução geracional a cumprir a sua missão de aperfeiçoamento. Mas, perdem em natureza, perdem em chão e em pedrinhas e em árvores que se trepam e em muros que se pulam e fogueiras que se saltam e em joelhos esfolados e em rebuçados para a acidez no estômago….

Bem sei que os tempos mudam e toda esta reflexão faz prova disso. Bem sei que este é o sinal claro de que estamos a tentar cumprir o nosso papel e a prepará-los o melhor que sabemos e podemos para o futuro que se avizinha e que será, sobretudo, o deles. Um futuro diferente do nosso, ainda mais competitivo, ainda mais sublimado na tecnologia e nas máquinas que tudo operam. E quando assim penso, descanso um pouco. Não posso é deixar de lamentar que eles não conheçam, como eu conheci, os prazeres de viver despreocupadamente, sem responsabilidades sufocantes e desempenhos de excelência envoltos em contornos de obrigatoriedade…

Cláudia Cruz Catarino

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