
Quando chegou, trazia consigo o cansaço de uma vida que arrastava com dificuldade.
Os olhos, de uma cor aguada e indefinida, deixavam adivinhar um passado demasiado penoso e que jamais revelaria por palavras. Afinal, elas nunca seriam suficientes… nunca dariam conta de tudo aquilo que se havia passado, das dores tremendas que havia sentido, dos sofrimentos desmedidos, das visões horrendas de um inferno terreno.
Para lá da órbita ocular, um cérebro crepitante ainda fumegava. Sim, porque se notava que já houvera incêndio naquela alma outrora refulgente. Mas, a vida foi-se encarregando de jogar porções de água envenenada que, à vez, iam tortuosamente apagando o fogo radioso que dantes aquecia.
Silenciosamente, o desespero foi-se apoderando daquela vida e enterrou com requintes de crueldade a esperança, a fé e a crença num amanhã misericordioso. Entregou-se, então, a todos os prazeres mórbidos que sempre se transformam em horrores solitários repletos de desilusão e decadência mortais. Álcool, drogas, abandono de si mesmo. Afastou todos aqueles que amava, fez ruir o seu pequeno mundo privado e deixou-se afogar no fel que ele próprio gerava a cada dia que passava.
Nem sei como é que este pobre resistiu a tanto. No corpo, traz marcas profundas, irreparáveis que nem deixam adivinhar-lhe o semblante de quando era jovem, mas é no espírito que mais impera o desgaste. É lá, lá, onde se formam as emoções e se aninham os sentimentos. É lá que a tragédia impera e fustiga ainda e é nos seus olhos inconstantes que tudo acontece diante de nós.
Quando encetei conversa com ele, confesso que me senti um pouco assustada. Retraí-me, porque aquela figura quase dantesca, a princípio, dá medo. O cabelo desgrenhado, a boca com uma dentição em pouca quantidade, os olhos ensombrados, cavados, ora vazios, ora transbordantes. Arrepiei-me, de facto, confesso. E, depois, passados uns momentos de conversa com ele, envergonhei-me da minha reacção inicial, porque dentro daquela carcaça maltratada, dentro daquele crânio desconcertado, mora um ser humano em potência a quem a vida parece estar a dar a tão desejada derradeira oportunidade.
Todos os dias vem ter connosco e, quando não vem, dedica-se arduamente àquilo que lhe é solicitado. Escreve, reflecte e assim vai purgando os males que o corroem numa sinfonia surda, mas castradora e agonizante.
Bem sei que não diz tudo, ainda lhe dói brutalmente tocar em determinadas feridas, mas a expiação vai acontecendo todos os dias sob o nosso olhar incrédulo perante a capacidade humana.
Há dias, mostrou-me uma carta singela que guarda como tesouro precioso e delicado. Tem a dimensão de uma oração divina que, colocada junto do coração e rezada silenciosamente, dá vista aos cegos e voz aos que nada são capazes de pronunciar. Está escrita numa letra redonda e feminina de caracteres muito juntinhos e alinhados. Traz palavras de conforto e incentivo e apela ao bom senso ao mesmo tempo que reforça o orgulho e contentamento sinceramente sentidos. Mas, o mais central e explosivo é a ternura derramada na expressão «Amo-te muito, paizinho e estou sempre contigo ainda que longe, fisicamente». Arrasa-nos, no bom sentido, é claro. E arrasa aquele pobre dilacerado pelo arrependimento que é como mordedura de cobra que mata lentamente.
Duras provações, estas que o ser humano enfrenta sem nunca ter sido preparado para nelas deambular. E, tudo isto remete-me, invariavelmente, para a reflexão exigida quando somos espectadores de uma história assim. É urgente fecharmos os olhos, num impulso introspectivo, e procurarmos todos os predicados valiosos que habitam em nós e nos tornam humanos. Só os bons, só aqueles que geram vida, só aqueles que confortam, que acendem a luz necessária, só aqueles que fazem de nós seres infinitamente solidários e, por isso, tão humanos.
(Gosto de acreditar que, na batalha dos lados Bom e Mau que todos abrigamos, o lado mais divino, ainda que, numa luta renhida, possa sempre levar a melhor. Pelo menos, tenho tido o privilégio de constatar - e, por isso, não se trata de um laivo de romantismo exacerbado - que isso é bem possível).
Cláudia Cruz Catarino
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