Conheci a Hannah quando tinha acabado de entrar neste novo desafio profissional.
Chegou de mansinho, num português africano com sabor a mar e a sol quente.
A doçura dos seus olhos muito negros exprimia-se em uníssono com a pele escura e seca pela vida de trabalho duro que deixava antever.
Sofria do coração. Ironia do destino quando o coração em causa me parecia tão bom, tão humanamente saudável.
Tinha filhos e netos, uma família inteira que contava com ela e a quem ela entregava toda a sua dedicação e sabedoria. Para além disto, ainda tinha a generosidade de trabalhar com crianças diferentes, daquelas que só de ouvirmos os problemas que carregam, arrepiamos e franzimos a expressão. Cozinhava para elas a minha doce Hannah e temperava cada refeição com as especiarias que cultivava na sua alma que era solo fértil em bondade e dádiva.
Lembro-me que trazia sempre um sorriso franco embora tímido e a subserviência característica de quem nunca se achou melhor que ninguém. Agradecia-me todas as minhas acções, ainda que banais ou automáticas e quando pronunciava o meu nome, fazia questão de frisar cada sílaba « Que-láu-di-a…». Ainda a oiço ao telefone, desculpando-se por não poder comparecer a uma reunião agendada, sempre tão humilde, sempre tão amável.
Uma vez, chegou-me cansada, ofegante para não se atrasar. O coração traiçoeiro, que já a tinha levado à mesa de operações por duas vezes, teimava em fatigá-la e comprometer-lhe a respiração. Neste estado, era ainda mais difícil compreender-lhe o português afectado pelo dialecto africano que às vezes me transportava para o universo dos nativos.
Era uma verdadeira festa quando estávamos juntas. Aquela alegria tão primordial, tão ausente de malícia, deixava-me completamente embevecida e a empatia era mesmo inevitável. Ríamos, brincávamos sem maldade, sem dissabores, sem desconfiança, trocávamos histórias de vida, preocupações, angústias, mas felicidades também.
Ela perguntava-me sempre pelos meus «mininos» que dizia tão lindos quando os olhava nas fotografias e, por confiar em mim, levava consigo os netinhos que a fixavam, divertidos na complacência da sua limitação infantil. Para mim, guardavam expressões cúmplices e sorrisos marotos que ondulavam ao sabor das marés que as minhas palavras pareciam originar.
«Cumprimentém à dotôra, mininos!», exclamava Hannah no seu tom firme, mas delicado. Eles esgueiravam-se por entre as mesas e as cadeiras em manifestação provocatória e quase sempre me pediam bolachas doces, tão doces como os seus olhinhos brilhantes, tão doces como o semblante da avó. E, no final, o beijo lambuzado na minha bochecha era a moeda de troca a par com os sorrisos que transbordavam um misto de inocência e tropelias que se avizinhavam.
Era com orgulho e brio que Hannah falava da sua cultura, tão cara e tão imensamente sua. As fotos que me trazia eram para mim imagens extraídas de um filme quase surrealista. Fatos pomposos, coloridos, repletos de remates e purpurina; cabelos eriçados num penteado extravagante ou cobertos por um turbante vistoso; os corpos adornados por jóias magníficas e ouro, muito ouro; a maquilhagem sofisticada e intensa que se destacava nas fotos já envelhecidas ou danificadas porque mal acondicionadas. E, por último, a pochete, minimalista, mas de um estilo quase barroco pelos dourados e drapeados que exibia sumptuosamente.
Era quase como estar diante de uma dupla personalidade. Como é que alguém tão simples e desprovido de vaidade pode passar por esta metamorfose? «São os côstumis, dotôra, são os côstumis….», justificava a minha Hannah. E assim é. Na comunidade à qual ela pertencia, cada dia de festa nunca era celebrado pela metade. Se o ambiente era festivo, havia que fazer jus e elevá-lo sempre à categoria de cerimónia! E, por isso, a minha simples cozinheira, avó, mãe e protectora dos aflitos saía do casulo e transformava-se numa linda borboleta sempre que a ocasião assim o exigia.
Quando chegámos ao fim, reconhecemos que, efectivamente, a sua maior dificuldade era a expressão escrita. Constatação injusta para quem comunica oralmente com tanto empenho e expressividade. Mas, os anos de infância roubada sem ir à escola impunham agora as suas consequências e, de facto, era penoso o acto da escrita para a minha Hannah. Fugiam-lhe as palavras, multiplicavam-se as hipóteses de escolha nas situações ortográficas e as palavras não davam conta do manancial de sabedoria generosa que se agitava no intelecto deste ser humano maravilhoso.
Há pessoas que nos tocam e, por isso, se tornam especiais, mas há aquelas que permanecem dentro de nós e nos guiam, porque nos ensinam quando entram de mansinho, num português africano com sabor a mar e a sol quente, mudando para sempre o nosso modo egoísta e narcísico de enfrentar o mundo.
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