Quando o vento, incontrolado, lhe batia na vidraça mal fechada, Elliot gostava de não pensar em mais nada e ficar apenas quieto de olhos fechados e todos os sentidos travados excepto a audição. Era aquele sentido que importava naquele momento. Era daquele que tinha de obrigatoriamente emanar qualquer coisa. Um clique, um sinal, uma sensação exasperada. Tal como num pôr-do-sol era a visão que prevalecia ou nos tragos saborosos de uma qualquer ambrósia seria o paladar a protagonizar o deleite e a atenção especial.
Os sentidos eram, sem dúvida, a porta de entrada, o canal de comunicação entre o mundo que o rodeava e aquele que ele se propunha criar. O resto vinha de forma extra-sensorial, envolto em magia inexplicável. O resto jorrava de uma fonte invisível e amorfa que é segredo intransponível e a que muitos chamam inspiração.
Num momento que podia demorar horas, mas que se traduzia em breves segundos, eis que a obra nascia, eis que novos mundos se insinuavam e das folhas de papel outrora brancas brotavam agora as mais belas palavras envoltas em harmonia, musicalidade e sabedoria.
Para Elliot, sempre havia sido assim. Quase como numa dinâmica de servo que cumpre a vontade divina, ele facilmente se tornava arauto dos céus e, de repente, oferecia ao mundo a clarividência honesta e edificante da palavra certa que nos toca como se de pó de estrelas se tratasse.
Tinha um público muito próprio, uma pequena elite consumidora voraz e sequiosa do intelecto generoso do poeta. Era confortável escrever para eles. Já conheciam os códigos. Sabiam-nos instintivamente. Admitiam inovação, enriqueciam a obra com a diversidade interpretativa e dos mundos criados pelo artista multiplicavam-se os universos do leitor participativo e perspicaz.
Todavia, a fragilidade do ser humano superava a condição semidivina do poeta., arredando-o, assim, do Olimpo desejado. Fragilidades que se espelham em posturas tão banais como a insegurança ou o esgotamento intelectual.
- Não posso crer! – gritava o poeta. Não posso! Não pode ser!!!
Agitado e com um desgosto que lhe inundava a face consumida pela angústia petrificante, Elliot sufocava em si mesmo. A inspiração tinha desaparecido. Como se de um caudal se tratasse, o rio havia secado e o leito árido e vergonhoso era agora estandarte de um fracasso imprevisto. Nem uma frase brotava da mente outrora magnífica, nem uma ideia com sentido. Nada. Irredutivelmente, nada. Desprezivelmente, nada. Nada. Nada. Nada.
Saiu porta fora. Desesperado, embrenhou-se no mato cerrado que rodeava a pequena habitação que o acolhia, a si e às suas saudosas ideias e palavras encantadas. Percorreu caminhos sinuosos, cheirou intensamente o pinho que abafava o solo humedecido. Fechou os olhos vezes sem fim, como se chamasse a si todos os outros sentidos. Congregou todas as sensações que a Natureza lhe disponibilizava, encerrou em si os ruídos, os aromas, o sabor acre das bagas que encontrava, a aspereza dos troncos que o vigiavam, a maciez das folhas que lhe cobriam a silhueta esbatida no chão. Média luz, contraluz, claridade, escuridão total. Apagou-se. Acendeu-se. Rodopiou. Parou. Agitou-se. Gritou alto… Nada!!! Desilusão…
Para onde tinha ido, afinal, a inspiração que o acompanhava há tanto tempo? E como tinha isso acontecido? Seria uma doença passageira que um médico pudesse tratar? Seria castigo divino por algum mal que houvesse causado?
Perguntas e mais perguntas que se acumulavam e geravam no artista uma sinfonia desconcertante.
Resolveu, então, procurar aquele que sempre o abrigara – Rafael.
Rafael era um velho amigo que conhecera Elliot quando ambos ainda partilhavam a juventude e o sonho da escrita. A vida tinha levado, no entanto, Rafael a optar pelos prazeres da escrita em tempos livres. Sem obrigações. Envolta em delícias constantes e sucessos esporádicos.
Já Elliot tinha sido consumido pela escrita desenfreada que roça a loucura. Era, de facto, muito bom. Amava a escrita, amava o mundo e reproduzia-o sob a forma de palavras que se unem num sentido definido.
- Deixa-me ficar cá, Rafael. Por favor. Não sei o que fazer. Se não consigo mais escrever, o que será de mim? Porquê? Porque é que isto me aconteceu?
- Calma, descansa. Estás cansado. É só isso. És um homem. Um homem como qualquer outro homem. Tens momentos. Todos temos. E o teu momento, agora, tem de ser de descanso, está bem?
Elliot anuiu sem esboçar qualquer expressão que indicasse sentimento por detrás do semblante carregado e opaco.
Deitou-se devagar com a cabeça muito bem colocada sobre a almofada como se acreditasse convictamente que o seu crânio abrigava um tesouro incalculável.
Chorou a noite toda. Já o sol forçava a entrada no taipal da janela quando o poeta tranquilizou. Mas foram breves os momentos de paz interior. Demasiado breves, por sinal.
- Nãaaaaaaaao!!!!!!!!!!! Não pode ser!!! Isto não me está a acontecer. Nãooooo, por favor, não…… - e soluçava compulsivamente de uma maneira que causaria compaixão a qualquer um que assistisse a tão triste cena.
- Rafael, tentei, tentei, mas não me saiu nada durante toda a noite! Nada! E agora, Rafael, e agora?
Elliot tinha os olhos vidrados como se prestes a desprender-se da face. Gritava, gesticulava e abanava o amigo ininterruptamente.
- Pára, Elliot. Vais magoar-me. Pára, amigo. Vamos. Temos de consultar um médico. Não podes continuar assim. Por favor.
Foi-lhe diagnosticado um esgotamento nervoso severo. O espírito, demasiado forçado, escusou-se a dar resposta e, num reflexo de auto-protecção, entrou num estado de «ponto morto», nem para a frente nem para trás. Havia, portanto, que seguir à risca um plano de descanso e tomar alguma medicação. Medicação que lhe iria entorpecer os sentidos, aqueles mesmos que ele tanto valorizava e que eram manancial de ideias e palavras que frutificavam e geravam Arte.
- Não sei se quero definhar desta maneira. Acabar com o que possa restar de mim com estes fármacos hostis que vão fazer sair de mim um outro eu. Sim, porque eu sou o que escrevo. Nada mais importará se eu não me puder concretizar na escrita. Nem vale a pena estar neste mundo.
- Não digas disparates, Elliot. Tu vales muito. Vales tanto. E, para além do mais, vais voltar a escrever. Não duvides disso. Vais voltar a ser feliz, amigo.
- Não me parece, Rafael. Eu existo através da escrita. Eu vejo-me através daquilo que escrevo e os outros, aqueles que lêem o que escrevo, vêem-me através das minhas palavras. É bom sentir o reconhecimento. Confesso que já nem sei viver sem ele. Parece-me que me viciei nos aplausos, nos comentários. Como é que eu vou pura e simplesmente dizer «Acabou. Acabou… Não há mais. Não vos posso dar nada mais.»
- Elliot, a tua escrita já te tornou imortal. O que escreveste jamais será apagado. Jamais. Não será apagado das páginas das edições que correm mundo nem tão pouco das vidas daqueles que se deixaram impregnar das tuas ideias e se inundaram da beleza que a tua poesia projecta. A cada nova leitura, tu renascerás na interpretação daquele que a ler. Não te subestimes, amigo. Por favor. Abençoada a mente de quem já fez nascer aquilo que tu fizeste. Há tantos que se vão sem conhecer esse prazer.
O poeta baixou os olhos, triste. Tão triste que parecia nem ouvir as sábias palavras que Rafael proferia.
Fechou a porta do quarto, apagou a luz e deixou que o silêncio o inundasse numa tortura contínua.
Foram dias tremendos em que a dor que sentia era tanta que a qualquer momento parecia sucumbir e desagregar-se de si próprio, da sua identidade ou daquela que tão intimamente tinha projectado…
Enclausurado no quarto, iniciou um processo de auto-comiseração incrível e quase fatal. Não comia nem bebia. A luz feria-o e, por isso, entaipou-se como se lá fora o mundo ansiasse sorvê-lo. Não tardou a que chegassem a ele imagens irreais, fruto da alucinação causada pelo tremendo estado de fraqueza. Redemoinhos, fantasmas, sorrisos e lágrimas, faces desconhecidas, palavras soltas e apenas sussurradas.
- Rafael! Rafael! Estarei louco? É isso? Enlouqueci? Não posso! Não aguento mais este terror abismal.
O quarto exíguo mas confortável era agora cenário de uma tragédia que atingia o clímax esperado. Era incontornável.
Existem relatos de que, na natureza, homens e animais definham rumo à morte quando sentem que já não são úteis. Os primeiros motivados pelo raciocínio implacável, os segundos movidos pelo instinto mais básico da sobrevivência. Deixam-se ir, acabam de forma ténue sem grandes sobressaltos ou estranhas reacções numa evidente decadência de espírito.
Ao lado da cama de ferro que aconchegava o poeta, numa pequena mesinha de apoio já ausente de envernizamento, colorido e insinuante, jazia o frasco fatal que guardava a medicação prescrita.
Tremulamente e sufocado pelas lágrimas que vertiam descontroladamente e rolavam pela sua face agora lívida, Elliot preparou-se para o golpe final que seria a revelação das suas fraquezas e angústias, o seu lado mais mundano que o arredava irremediavelmente do estado de semideus que havia dimensionado.
Já os primeiros blisters entravam na sua boca quando Rafael irrompeu como um raio seco que não se espera mesmo em noite de trovoada.
- Pára! Destruíres-te? Porquê? Para quê? Para o mundo inteiro ter pena do pobre poeta? Por acaso achas que te tornarás um mártir? Os mártires são sempre lembrados, é um facto, mas tu, tu não és um mártir, Elliot. És um artista caprichoso e egoísta que desceu do seu pedestal e aterrou na crua realidade de que é um homem. E será isso um castigo, Elliot? Ser um ser humano é um castigo? Ter o dom da vida, poder gerar vida e ainda possuir o livre arbítrio que tudo permite e nada nega será um castigo, Elliot?
- Olha à tua volta! Olha! Estás doente, meu amigo… Doente de ti. Tu és a tua doença! Esse intelecto maravilhoso que abrigas e que agora deixaste adormecer infectou o teu coração. Secou a fonte que alguém te ofereceu. A ti e não a outro homem. Sim, porque nem todos os homens são tocados pela inspiração que, no teu caso, era praticamente incontrolável.
Era agora a vergonha o sentimento mais furioso no semblante do poeta. Uma a uma as escassas pílulas coloridas que havia tragado caíam-lhe dos lábios pálidos e imóveis. Não proferiu uma única palavra. Não se defendeu, não tentou expiar mágoas ou encetar defesas absurdas. Nada.
Rafael tinha-se esfumado e só as palavras que havia proferido ecoavam na cabeça do artista.
Exausto e desprendido da vida deixou-se cair quase inanimado na enorme cama de ferro.
No dia seguinte, acordou agitado, estremecido pelo odor forte de café acabado de coar.
- Quem está aí? Rafael? És tu?
- Bom dia, Sr. Elliot ! Como está hoje? Sente-se melhor? Que febre, senhor…
- Rosa? E o Rafael? – perguntou o poeta ainda anestesiado.
- Rafael, senhor? Quem é Rafael?
- O meu amigo de há anos. Melhor amigo, Rosa. Trabalhas cá desde que para cá vim, como é possível estares a indagar-me sobre o Rafael.
- Senhor, descanse. A medicação ainda está a fazer efeito. Ainda está muito débil, senhor. Tem mesmo de descansar. Vou trazer-lhe um chá bem quentinho. Aquele de maçã e canela que o senhor tanto gosta.
- Rafael? Continuarei louco? Não! Claro que não! Eu sei bem que não!
- Posso, Elliot? – perguntou alguém batendo ao de leve na porta robusta e ligeiramente empenada.
- Rafael?
Uma cabeça loura e uns olhinhos pequeninos mas muito brilhantes espreitaram por detrás da madeira que quase intimidava.
- Ah! Cármen? – sorriu Elliot embevecido. Entra! Por favor, entra!
- Querido Elliot, que susto nos pregaste! Estás melhor?
- Não sei, Cármen. Não sei se já consigo escrever. Mas, e o Rafael? Não me digas que também não te lembras dele.
- Rafael? O filho da tia Concha? O pequenino ruivinho?
- Não, Cármen! Não! O meu amigo Rafael. Melhor amigo de todos. Estivemos juntos na faculdade. É presença assídua nesta casa. Por amor de Deus…. Estarei louco de todo ou quererão vocês enlouquecer-me?
- Calma, querido. Tens de descansar. O médico disse-nos que o teu esgotamento foi grave. Não deves voltar a descurar a tua saúde. Passámos cá a noite inteira. Eu e a tia Concha. A Rosa preparou o outro quarto para podermos descansar. Não estiveste nada bem, Elliot, e parece que ainda não estás… Por favor, descansa.
- Obrigado, Carmenzita. Desculpa estar a ser rude. Desculpa. E a tia Concha?
- Foi ver o Rafael. Verificar se está tudo bem.
- Rafael? – exclamou Elliot excitado e já esquecido da conversa anterior.
- Sim, Rafael, o filho da tia Concha. 10 anos. Impossível ter andado contigo na faculdade…
- Ah, sim. Desculpa, Cármen. Sim, preciso mesmo de descansar. Vai tu também, querida amiga.
- Tens a certeza? Ficas bem?
- Sim, claro que sim. Obrigado.
- Ah, Elliot, o senhor da editora ligou há pouco. Disse-lhe que estavas a descansar mas nada mais adiantei acerca do teu estado.
- Sugadores! – retorquiu Elliot em voz baixa.
- Como? – estranhou a rapariga.
- Não, nada. Nada. Obrigado, Cármen. Fizeste bem. Como posso agradecer a tua generosidade?
- Esquece lá isso e fica bem. Quero continuar a ler-te, a descobrir-te por entre os enredos que as tuas palavras tecem.
E retirou-se em passos largos do quarto que abrigava o amigo.
Elliot voltou a esboçar um sorriso apagado e nada sentido. Acusou um tremor a alastrar-se pelo corpo ao mesmo tempo que lhe subia lenta e tortuosamente pela medula.
- Rafael? Quem és tu? Onde estás, amigo?
Deitou-se resignadamente, ausente de qualquer projecção acerca do futuro. Todavia, as palavras de Rafael continuavam a ecoar-lhe e desciam incisivas ao lugar mais recôndito do seu ser debilitado.
Eram palavras duras, bastante realistas, mas nada castradoras. Muito pelo contrário, incentivavam a acção, geravam dinâmica, agitavam ideias que iniciavam congregar-se e fundir-se num todo com sentido e também ele motivador.
Nessa noite, os sonhos trouxeram revelações que tranquilizaram o artista. No dia seguinte, tomado pela energia intelectual inesgotável que sempre o caracterizara, Elliot pegou na folha branca que guardava na gaveta da secretária antiga do seu quarto, a mesma folha que o aterrorizara há dias atrás e quase o fizera desprezar o dom da vida.
Lá estava ela. Sinuosa. Desafiadora. E, ao mesmo tempo, tão frágil, tão branca, tão vazia, tão inerte, tão nada…
Tomado pela inexplicável força anímica que fizera dele um artista adorado, escreveu, escreveu, escreveu. Quase sem pensar. Quase louco. Claramente desprendido da razão.
A caneta, sempre a mesma, em prata, lembrava a batuta ondulante do maestro que inspira a música de todos os instrumentos para logo a seguir expirar as suas emoções afinadas, porém desconcertantes:
Não sei que força ou que ímpeto me movem.
Fico quedo, petrificado, de olhos fechados e espírito aberto,
esperando sorver saborosamente
a doce brisa que me acende os sentidos e me amplifica as emoções.
Extravaso-me, supero-me, adio-me
e não mais controlo o que brota do meu ser extasiado.
Será o teu perfume, a tua doce voz?
Será o toque macio da tua pele vibrante?
Ou o sabor das tuas palavras ora acres ora melosas?
A visão de ti completa-me e enche-me de melodia compassada,
Bem orquestrada.
Deixo-me ir então.
Adio-me novamente.
Viajo por claves, pautas,
Aromas impetuosos e visões do paraíso.
Voo até ti e contigo.
Voo por baixo no topo do teu ser errante.
Voo para aterrar nas ideias claras
Que vejo por ti e através de ti.
Amigo, companheiro, sombra dos meus passos imaginários.
Conforta-me e diverge-me,
Empurra-me para o vórtice,
Sacode-me do obstáculo.
Alento e Esperança.
Alegria e Comoção.
A divindade é tua, pois só tu reinas entre todos os outros.
Na multidão celeste que apazigua os feitos dos homens
A trompeta é tua, pois dela emana o som insinuante.
E assim, por entre coros de querubins atarefados
Eis que o protector dos meus pensamentos
A Inspiração que por momentos me torna um deles
Desce dos céus e me enche de vida.
Rafael, Anjo Rafael,
Que a tua inspiração cubra as minhas palavras
E não mais permita que me ausente de mim!
Elliot Smith
Em êxtase merecido, o poeta-maestro pousou a batuta serenamente e sorriu para depois soltar uma gargalhada infindável.
Deitou-se novamente e descansou mais um pouco. À noite, lá estaria o editor para programarem a próxima data de entrega e não havia muito tempo a perder.
Ola, existe algum contacto para falar de uma possivel publicação? responde para paulinho.inc@gmail.com
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