segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Doce Pátria



Era uma lojinha pequena e muito amistosa que servia de ganha pão a um casal de ex-emigrantes que, após anos a fio a laborar em terras alheias, resolvera, agora, regressar à pátria calorosa e redimida.

Lá dentro, cinco ou seis mesas decoradas com um gosto supostamente cosmopolita, atendendo a que se fazia notar a necessidade de evidenciar as modas trazidas «lá de fora», como gostavam de sublinhar ao comum transeunte que por ali passasse para saciar a sede ou beliscar qualquer coisinha…

Ao fundo, na parede mais destacada, erguia-se uma sumptuosa pintura que dava conta de uma paisagem característica do lugar de onde haviam regressado – um lago enorme de um azul pastoso com imensos verdes eléctricos em volta e, no centro, um imenso repuxo acompanhado da respectiva legenda que reportava à cidade retratada e que dava nome ao estabelecimento comercial.
Era de facto extraordinário comprovar o quanto a alma portuguesa é nata e nunca abandona aqueles que por aqui nascem e por aqui são iniciados nas artes de se ser lusitano. Aquela pintura berrante e repleta de tons em esmalte, os mesmos que cobrem as embarcações do Sado, jamais poderia ser proveniente do sítio ali imortalizado.

Não porque os outros sejam melhores ou menos afectados. Simplesmente, porque os outros, aqueles que ocupavam metade do meu campo de visão dentro daquele exíguo cafezinho, não eram, de todo, portugueses, nem tão pouco setubalenses. Nas veias, não lhes corre o folclore tradicional, o perfume fresco do pescado acabadinho de chegar nas traineiras sorridentes que cantam e dançam por entre as ondas do Rio Azul. Nas veias, jamais lhe correram os gritos das gaivotas, o cheiro tóxico das tintas que retocam as pequenas embarcações atracadas na doca e que são princesas imaculadas nas mãos dos homens-artistas que lhes dão nova vida, tingindo-as de luz.

Há anos atrás, ambos haviam chorado lágrimas sem fim ao tomarem a dolorosa decisão de ir para fora, deixando a sua amada pequenina aos cuidados de uma avó. A bebé, ainda redondinha e rosada, tinha apenas dois aninhos quando viu os pais saírem, à procura de um futuro melhor. Para eles. Para ela. E aquele minúsculo cafezinho situado na baixa de Setúbal era agora troféu erguido em jeito glorioso de merecida vitória. Era a prova de que tinha valido a pena. De que não tinha sido em vão.

Eram um casal curioso. Ambos bem constituídos e de olhinhos brilhantes e bochechas coradas, irradiavam calor humano e uma conversa absolutamente irresistível. Ela, principalmente. Num sotaque sadino carregado, desfiava alegremente o rol de acontecimentos dos últimos dias. O último casamento, a próxima loja a abrir nas redondezas, as doenças dos que por ali paravam e até as mortes daqueles a quem nem tínhamos chegado a conhecer, mas que eram primos de um tio do amigo da irmã….

Quando lá ia debicar um saboroso café, perdia-me naquele manancial de histórias, historinhas e historietas contadas em jeito de epopeia. Não pelo seu conteúdo, não pela densidade semântica das frases enunciadas, não pelo potencial literário (na altura tema central dos meus estudos), mas pela capacidade dramática, pelo tom eloquente, pelo pensamento único acompanhado do gesto adequado, da expressão conveniente.
A pronúncia arrastada dos rrrrrs, aquele terminar das sílabas que nunca acabavam em «o», mas em «e» - o menine trrrrôxe-me o sapate. Tudo tão meu, tudo tão familiar, tão envolto em memórias de uma infância vivida entre as Fontaínhas e Tróino, entre peles queimadas pelo sol que a enruga e esbate, entre cigarros fumados até à última baforada e histórias com sabor a sal, areia e conchas.

Guardo no meu coração as melhores recordações de quando era criança feliz e livre. Quantas vezes descia as escadinhas da estacada que dá para o rio e onde o meu pai se distraía enquanto pescava. Quantas vezes me imaginei a escorregar nos limos macios e a cair mesmo no último degrau e mergulhar de cabeça dentro de água. Molhar os pés era a delícia suprema, trazer pedrinhas e conchinhas a tarefa obrigatória em dia que acompanhasse o meu pai. Subia e descia as escadas vezes sem conta e controlava com perícia os peixes que se iam acumulando dentro do balde que o meu pai havia providenciado para o efeito. Lamentava sempre a sua sorte, concluía que não queria tal destino para mim e assim afastava a ideia peregrina de querer ser sereia. Tantas vezes me assolou esse desejo tão feminino. Imaginava-me a deambular pelo fundo do mar com cabelos enormes e um corpo meio mulher, meio peixe. Sempre com uma flor por cima da orelha, sempre com olhos azuis…

Que fantasias habitarão os corações dos meninos que nunca viram o mar? Que algas se agitam no fundo das suas almas térreas?

Aquele casal simpático e afável, sempre risonho, sempre gentil, trouxera consigo um som diferente nas sílabas agora musicadas, trouxera retratos de outras paisagens, memórias de outros cursos de água, mas a doce pátria e a cidade natal acenavam de dentro deles continuamente, intimamente, de um modo desconcertante e incontornável. No fundo, aquele rio suíço eléctrico que a parede central ostentava no ponto mais estratégico do cafezinho mais não era do que o Sado vaidoso e ondulante, o único pedaço de mar que os seus corações realmente conheciam e sinceramente amavam.

Cláudia Cruz Catarino

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